domingo, 26 de dezembro de 2010

Adeus ano velho, feliz ano novo!

Agora só ano que vem. O Paladar volta não sei bem o dia, mas ele volta. E que venha 2011! Feliz ano novo! Vamos de peito aberto porque a batida vai ser essa aqui, e nesse ritmo quem precisa temer? O mundo é nosso!

ps-e não vai ser necessariamente nessa ordem, mas que vai, vai!














sábado, 25 de dezembro de 2010

o treino para o bom-combate.

Hoje acordei cedo. As 6:30 da manhã sai de casa com minha bicicleta em direção a casa de meus pais na Praia Grande, litoral paulista. Dia nublado. Sabia mais ou menos o que irei ser isso e o que mais me deixava feliz era o tempo que estarei sozinho e em movimento nos quase 90 km que separa minha residência da deles. Há muitos anos descobri que adoro ficar certo tempo sozinho e essas jornadas me ajudam a lidar com isso. Depois de quase 3 horas de pedalada para sair de São Paulo e 15 km de Imigrantes, uns 40 km, precisei mudar de caminho porque o trajeto que havia pensado em fazer estava interditado. A polícia rodoviária não me deixou seguir. Desviei e fui para pista da Anchieta, uma mudança que me fez pedalar mais 10 km e ainda na chuva. A chuva batia de frente e em cada pedalada só tentava estar inteiro naquele momento. Não pensava que estava difícil ou fácil, só estava ali, pedalando e sentindo a água. A rodovia Anchieta é por onde descem os caminhões pro litoral. A pista é estreita, tem 14 km iniciais sem acostamento. Naquelas condições, chovendo e com neblina era quase suicídio! Desci uns 2 km e não encontrava a porra da estrada alternativa! Fiquei preso num "escape"... olhei e via apenas o morro, os caminhões descendo, a mata, a chuva aumentando, e nenhuma estrada! Nada! Pensava que só tinha que ir pra frente, adiante. Até porque voltar não dava, o sentido é único, sem mão dupla. Empurrar na contramão por 2 kms naquele tempo entre caminhões? Nem fodendo! Restava esperar a chuva diminuir ou passar alguém que me levasse até a entrada que estava buscando e não encontrando. E aí aconteceu algo muito inusitado. Como contar isso? Apareceu um cara caminhando no espaço de 30 cm entre a pista e a mureta de contenção! Eu não acreditei naquilo! O homem olhava firme, tinha passos determinados e parecia estar na areia da praia. Ele estava enrolado num saco de lixo e vinha na minha direção, mas não olhava pra mim. Pensei na hora que ou ele era louco ou alguém com alguma proteção muito forte. Gritei e chamei por ele e perguntei se tinha visto alguma estrada por ali. Ele parou e disse que não, nada. Que tinha dormido numa ponte da serra e estava indo pra São Paulo! Sugeriu que eu voltasse porque estava muito perigoso, não dava pra pedalar ali. Falei que agora era só descer e que não irei voltar. Ele falou que eu precisava empurrar a bike e que lá longe talvez tivesse o tal caminho. Fiquei ali pirando no que fazer até que ele disse que tinha encontrado uma corrente ou algo assim e se eu não poderia comprar. Disse que não, mas que tinha um doce. Abri a mochila e dei pra ele, mas fiquei incomodado sem saber porque. Ele me abençoou e voltou pra o “acostamento” de 30 cm. Quando o trafego diminuiu por alguns segundos peguei a bike e desci um pouco mais, uns 500m. Tive que parar. Estava preocupado e realmente seria uma enorme irresponsabilidade entrar ali com a bicicleta. A chuva aumentava. Decidi esperar passar alguém. De repente aquele incomodo de alguns instantes atrás voltou, e forte. Meu Deus porque não dei uma grana praquele cara?! O que aconteceu ali há pouco? Pensei em subir correndo e tentar alcançá-lo, e simplesmente lhe dar 10 ou 20 reais. Ponto. Senti-me um idiota e um egoísta. Aquele cara numa situação tão bizarra quanto a minha, provavelmente num momento muito pior, mas caminhando com tamanha sobriedade que parecia um guerreiro ioruba na busca da trilha de sua caça. E eu ali, buscando um caminho que não tinha a menor idéia onde estava e assustado. Senti-me pequeno e com pouca capacidade de discernimento para atender a generosidade que o mundo às vezes pede. Estava tão preocupado com minha situação que algo simples e que não me custava muito foi totalmente ignorado. Pensei em Exu. Pensei em meu Pai Tempo. Pensei nos caminhos e nas minhas escolhas. Nas minhas duvidas, no meu amor, nas lutas que travei, nos movimentos que apoio, nos arrependimentos que tive. Pensei nos acertos que fiz. Lembrei de você. Do que quero e do que não quero. Das repetições e limitações. No Axé. Na dor que começou naquele frio. No tempo que teria que ficar ali até aparecer alguém. Na morte por atropelamento. Na morte ao cair de alguma ponte. Pensei naquele homem negro que caminhava enrolado no saco de lixo improvisando uma capa de chuva. Pensei e tentei não pensar mais. Queria só ficar ali, sentindo a chuva e pedindo pra conseguir chorar... uns 20 minutos depois passa um carro da concessionária e eu aceno. Eles param e explico a situação. Eles conversam e decidem me dar uma carona. Venho na carroceria até uma estrada e volto a pedalar. Agora meu coração acalma. Não há carros ou caminhões e a ladeira alivia minhas pernas da pedalada. Durante uns 40 minutos eu apenas preciso frear e cuidar pra não cair em algum pedaço escorregadio. Tesão! Estou no parque da serra do mar em direção a Cubatão. Lá no fim da serra, só pra variar, o pneu fura... pausa pra consertar e comer algo. Nossa, tinha esquecido de comer! Levei umas castanhas e um vidro de palmito. Tudo certo, pedal again! Atravesso uma favela e saio no lado errado da pista! Merda, onde estou?! Vou um pouco adiante e pulo o alambrado com a bike. Faltam 25 km. Agora ta tranqüilo, já conheço melhor o caminho. Cheguei e fui direto pra praia, nem subi. Tava imundo e molhado. Tirei parte da roupa e fui só de short até a água. A chuva deu uma trégua e ali, depois de 8 horas, de dentro do mar, fiz minha oração. Silêncio. O ano vem teminando. O bom-combate não.

INCRIÇÕES ABERTAS PARA O IX ELAOPA | INSCRIPCIONES ABIERTAS PARA EL IX ELAOPA

22, 23 e 24 de Janeiro de 2011, São Paulo.

O ELAOPA surge em 2003, como um espaço alternativo ao Fórum Social Mundial(FSM), onde não participam partidos políticos, ONG's e nem representantes de governos; entidades estas, que diferem de nossa realidade e das intenções de nossas organizações.
O ELAOPA pretende então, juntar, encontrar e articular a luta de organizações populares da América Latina, colocando-as como atoras à partir das suas necessidades, realidades e anseios. Já participaram do ELAOPA diversos grupos/organizações: agrupações sindicais e sindicatos, coletivos culturais, muralistas, grupos de teatro, movimento de piqueteiros, desempregados/as, movimentos de luta pela terra, coletivos feministas, centros sociais, ateneus, organizações camponesas, ecologistas, coletivos em defesa dos direitos humanos, entidades estudantis.
Um dos principais eixos que sempre estão em nossos encontros tem sido aconstrução do poder popular, por uma perspectiva autônoma e de base, ouseja, desde baixo, capaz de resistir à opressão capitalista e criar alternativas de luta conjuntas, rompendo barreiras e fronteiras, a partir da solidariedade entre os/as companheiros/as.
O IX ELAOPA será realizado no Centro de Formação Campo Cidade doMST/Regional SP na cidade de Jarinú, Grande São Paulo, acesso pelo trem em Campo Limpo Paulista.

PARTICIPE e faça sua inscrição pelo site !!!!http://www.elaopa.org
As inscrições poderão ser realizadas até 10/01/2011. Para cobrir os gastos de alimentação e infraestrutura do encontro estamos pedindo a contribuição de R$ 25,00 depositáveis embanco!!!!

Importante citar também que as/os companheiras/os que estiverem fora do Brasil, poderão fazer sua contribuição na chegada.
Dúvidas pelo email:ixelaopa@riseup.net

Solidariedad siempre!!!!!!
Comissão de Comunicação do IX ELAOPA

****INSCRIPCIONES ABIERTAS PARA EL IX ELAOPA (CAST)22, 23 e 24 de Enero de 2011, São Paulo. El ELAOPA se inicia en 2003, como un espacio alternativo al Foro SocialMundial (FSM), donde no participan los partidos politicos, ONG's y nirepresentantes de gobiernos; entidades que difieren de la realidad y delas intenciones de nuestras organizaciones. El ELAOPA quieres entoncesjuntarse, encuentrar y articular la lucha de las organizaciones popularesen America Latina, poniendose como actoras con base en sus necesidades,realidades y aspiraciones.Han participado del ELAOPA organizaciones diversas: grupos sindicales ylos sindicatos, colectivos culturales, muralistas, grupos de teatro, elmovimiento de los piqueteros, losdesempleados/as y los movimientos de la lucha por la tierra, colectivosfeministas, centros sociales, ateneos, organizaciones campesinas,ecologistas, coletivos de defensa de los derechos humanos, organizacionesde estudiantes.Unos de los ejes principales que están siempre en nuestros encuentros hasido la construcción del poder popular, por una perspectiva autónoma ypopular, es decir, desdeabajo, capaz de resistir a la opresión capitalista y crear alternativas deluchas conjuntas, rompiendo barreras y fronteras, a partir de lasolidaridad entre las/los compañeras/os.El IX ELAOPA será realizado en el Centro de Formación Campo Cidade doMST/Regional SP, en la ciudad de Jarinú, Grand São Paulo, acceso por elferrocarril (tren) en Campo Limpo Paulista.PARTICIPE y haga tu inscripción por el sitio!!!!http://www.elaopa.orgLas inscripciones se pueden hacer hasta el 10/01/2011. Para los costos dealimentación y de la infraestrutura pedimos la contribuición de R$ 25,00,depositaveis en banco!!! Importante decir tambien que las/loscompañeras/os que estean fuera de Brasil, podrán hacer su contribuición enla llegada.Dudas por el email:ixelaopa@riseup.netSolidariedad siempre!Comision de Organizacion de el IX ELAOPA

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Janeiro, venha por favor!

Dezembro as vezes é um mês dificil. Particularmente pela música de natal e por amigos secretos sem fim. Janeiro, por favor chega logo! Enquanto isso, pianos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O que oferecemos a infância?

Já postei esse documentário aqui quando ele foi lançado, mas acho que falar de consumo e infância nunca é demais, particularmente nessa época do ano em que as expressões de afetos estão relacionadas com presentes e compras. Criança, a alma do negócio é inovador e sincero ao apontar e denunciar a indústria da propaganda e suas ardilosas estratégias de sedução, reflexivo ao escutar pais e educadores, e coerente em tentar regulamentar esse jogo desiqual onde a infância é quem mais perde. Visitem também o site do instituto ALANA, responsáveis pela produção do vídeo e por inúmeras ações de combate aos abusos da publicidade contra a infância.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O filho do homem

Que Olorum ofereça vida longa a esse homem e a essa gente! O melhor show do ano aconteceu esse fim de semana. Femi Kuti em Santo André. Simplesmente Kuti! Isso é Africa! Isso é Afrobeat! Isso é vida!

Economia solidaria e saúde mental

Depoimento da Risonete, trabalhadora do Bar SACI e grande parceira de luta.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

IV Feira de Saúde Mental e ECOSOL

A Rede de Saúde Mental e Economia Solidária realiza a IV Feira de Saúde Mental e ECOSOL no dia 18 de dezembro. A Feira começa às 11 horas na Escola de Enfermagem da USP e contará com apresentações culturais, tenda cultural com exposições e livraria, espaço de formação, praça de alimentação e diversidade de produtos artesanais. Tudo produzido nos projetos e empreendimentos econômicos e solidários da Saúde Mental.

Nesse Natal presenteie seus familiares, amigos, namoradas (os) com nossos produtos!! Venha se divertir e, neste Natal, pratique o consumo consciente e fortaleça o Comércio Justo e Solidário.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Veganismo fim de ano!

Sexta feira dia 17 de dezembro - 19h - Grátis
Lançamento do novo filme do Instituto Nina Rosa "Vegana"
Filme de 55 minutos - em animação.
HSBC Belas Artes - Av. Paulista X Consolação Sala 2
http://www.institutoninarosa.org.br/
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Sábado dia 18 de dezembro - $6,00
Encontro colaborativo e beneficente ao encontro de libertação animal (que acontecerá na Bolivia em janeiro de 2011) e também ao espaço ay carmela!

Programação:
Conversa - Apresentação do evento: encontro de liracioón animal: aí vamos nós!
a que? - + info: liberacionanimalbolivia2011.blogspot.com
prosa - debate com cicloveg Coletivo pedalador vegano. Em dezembro sai rumo ao encontro... de bicicleta! "A história do cicloveg - Como preparar-se para uma ciclo viagem vegana!"

SHOW COM AS BANDAS:
Nieu Dieu Nieu Maitre
Lifelifters
Days Of Sunday
La Revancha
Final Round

+ Feira e comida VEGANA!
ay-carmela.birosca.org
Ay Carmela - Rua dos Carmelitas, 140 - Sé - São Paulo
http://veganstaff.blogspot.com/2010/11/evento-jornada-beneficente-ao-encontro.html
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Dia 19 de dezembro - Domingo - Curso de Culianria Vegana com Alan Chaves
LOVING HUT (Rua França Pinto, 243 - Próximo ao metrô Ana Rosa)
Investimento R$ 50
Inscrições pelo email vegtour@gmail.com. Informações pelo telefone (11) 8869-0359
Maiores informações no www.cozinheirovidavegan.wordpress.com ou
vegtour@gmail.com
A partir das 14h - R$ 50,00

Alan Chaves, o chef vegano que cruzou o Brasil duas vezes com o seu projeto Vida Vegan VegTour, agora trabalha no mais novo restaurante vegano de São Paulo, o Loving Hut. E ele estará realizando sua aula de culinária 100% vegetariana, demonstrando de forma descontraída que a culinária está ao alcance de todos, desmistificando a gastronomia e aproximando todos da cozinha.
Não perca a oportunidade de de aprender e degustar pratos bonitos, práticos e saborosos. Surpreenda sua família e seus amigos neste final de ano!

Pratos sujeridos:
- BACALHOADA VEGETAL
- ROCAMBOLE AO MOLHO BARBECUE
- ARROZ NATALINO
- FAROFA COM ABACAXI E NOZES
- TORTA FRIA
- PONCHE SEM ÁLCOOL

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Afro Cuba

Você que gosta de Buena Vista Social Club vai adorar isso.


Quer ouvir o disco inteiro? Tá aqui! Valeu Ovo!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Campanha pela vida: cada um cuida da sua!


Aderi a campanha de vez! Ocorreu algo curioso comigo na terça-feira dessa semana. Estava indo para a defesa de tese de minha irmã na USP e o que aconteceu foi no percurso entre a estação Vila Madalena e a Cidade Universitária. Nesse trecho costumo utilizar o serviço da Ponte Orca, uma conexão de superfície feita por vans com passagem integrada para quem esta saindo do metrô. Quando fui me aproximando do veículo um funcionário acenou dizendo que haviam ainda dois lugares. Entrei por último e percebi que na verdade não havia lugar para mim sentar, logo, permaneci em pé. Um dos passageiros olhou para mim e com a voz um tanto alterada disse que era proibido viajar em pé. Olhei para ele e perguntei: "e?" Pensei qual era seu problema e porque estava preocupado comigo. Ele não satisfeito começou a falar com a pessoa a seu lado que o funcionário estava errado em sua conta por me deixar entrar na van e voltou a dizer que aquilo não estava certo. Evidentemente eu não desci. Primeiro porque não parecia um problema estar alí, percurso que faço a muitos anos, sentado ou em pé. Depois pelo absurdo do sujeito se achar no direito de interpelar deste modo um desconhecido que nada esta fazendo para ele e que tão pouco o prejudica. Fiquei esperando ele chamar o motorista ou o funcionário da porta para falar que eu estava em pé. Nada... A van partiu e em 20 minutos estavamos lá. Sorte a dele. Esse pequeno episódio me fez pensar na irônia da vida: a tese de minha irmã fala exatamente sobre dispositivos de controle, ditadura, tortura, sofrimento e medo. Esse epsódio me reforça a sensação de que o Estado de São Paulo é o Estado mais reacionário e conservador do Brasil hoje. Os dispositivos de dominação são extremamento sofisticados e a vigilância vem sendo devidamente inserida no cidadão anônimo. As vozes do metrô sempre dizendo o que não fazer, o maior contigente de segurança particular, a maior frota de carros blindados, o maior número de câmeras de vigilância em espaços públicos e privados, a maior população carcerária e o primeiro Estado a adotar a lei anti-fumo do Brasil. Falei sobre isso aqui. De todo modo o que vai tomando conta da população é esse espírito do direito a caguetagem, da delação, do dedo-duro. E depois tem gente que vem me falar de democracia e o escambau... o fascismo infelizmente ainda vive e vive bem dentro de algumas pessoas. Território esse difícil de combater.

sábado, 11 de dezembro de 2010

As 10 estratégias de manipulação midiática

por Noam Chomsky

1. A estratégia da distração.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. Criar problemas e depois oferecer soluções.
Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

3. A estratégia da gradualidade.
Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4. A estratégia de diferir.
Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade.
A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”).

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.
Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9. Reforçar a autoculpabilidade.
Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.
No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

* Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

** Colaboração do Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais CEPEC para o EcoDebate

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nossa terra

Como paulistano de alma faço questão de reproduzir as palavras sinceras de alguém que ama sua terra e sua gente. Palavra que caracteriza uma cidade, mas que também contempla um povo. Algo que vai além de um município, de uma geografia, de uma fronteira. Fala daquilo que nos constitui enquanto cultura.
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Eu sou do Rio de Janeiro
Luiz Antonio Simas

O Jornal O Globo resolveu, definitivamente, apostar na ideia de que a solução para os problemas urbanos do Rio de Janeiro é mais simples do que se imagina: basta transformar a cidade em uma imensa casa do Big Brother Brasil, em que todo mundo fuxica a vida de todo mundo, o cotidiano se transforma em um espetáculo midiático, o dedo-duro é elevado à categoria de cidadão exemplar e a sensação do medo é usada como poderoso instrumento de controle social. O discurso do jornal - em nome do interesse coletivo - tão somente reforça o individualismo mais tacanho que inviabiliza a urbanidade.

A última investida do jornalão é sintomática. O Globo criou uma conta no twitter para que o carioca denuncie ilegalidades que vão desde carros estacionados de forma irregular até barraquinhas de cachorro quente, botequins e bancas de flores que ameaçam o incontrolável desejo conservador da cidade-enfermaria. O polemista, advogado e centroavante carioca Eduardo Goldenberg já desancou aqui , com propriedade, os aspectos jurídicos da coisa e a histeria coletiva dos volantes de contenção.

Vou insistir mais uma vez, por vício de formação e clamando feito um João Batista no deserto, que as reflexões sobre os problemas urbanos do Rio de Janeiro ( e de qualquer cidade ) devem ser feitas em uma perspectiva que encare a urbe como um organismo vivo feito de história, lugares de memória, espaços de conflito, instâncias de urbanidade, relações tensas e intensas entre os diferentes grupos que habitam a aldeia, etc. Darei meu pitaco, nessa dimensão, sobre o twitter alcagüete (mantenho o trema) que o jornal criou e outras coisas mais.

Os primeiros governos republicanos criminalizaram as diversas manifestações da cultura popular no Rio de Janeiro - quase todas marcadamente vinculadas às áfricas que existem nas nossas ruas. Jogar capoeira passou a ser crime no Código Penal de 1890, os terreiros de macumba foram grosseiramente reprimidos e a posse de um pandeiro era mais que suficiente para a polícia enquadrar o sambista na lei de repressão à vadiagem . Os intelectuais do período - com raras exceções - pregavam a necessidade de se promover um branqueamento da população brasileira; única garantia de civilizar as nossas gentes. Chamarei atenção para esse fato quantas vezes for necessário.

Quando a escravidão foi pra cucuia, houve uma deliberada política de atrair imigrantes europeus para cá. Não há qualquer registro de iniciativa pública que tenha pensado na integração do ex-escravo ao exercício pleno da cidadania e ao mercado formal de trabalho. A ideia era estimular a imigração de brancos do velho mundo. O modelo de abolição da escravatura no Brasil foi descrito e analisado em 1.500 teses acadêmicas. Todas elas podem ser resumidas em uma única frase do samba da Mangueira de 1988: "...livre do açoite da senzala / preso na miséria da favela" (Hélio Turco e Jurandir - 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão).

Uma das primeiras leis de estimulo à imigração no período falava que o Brasil abria as portas, sem restrições, para a chegada dos imigrantes europeus. Africanos e asiáticos, porém, só poderiam entrar com autorização do Congresso Nacional, em cotas pré-estabelecidas. Traduzindo o babado: que venha o imigrante, contanto que seja branco e cristão. Mais do que encontrar mão de obra, a imigração no Brasil foi estimulada como meio de branquear a população e instituir hábitos europeus entre os nossos. O negro foi tolerado no Brasil apenas enquanto o meio de transporte para chegar às nossas praias foi o navio negreiro, assim como certos segmentos das elites (não todos, que fique claro) toleram as camadas populares porque precisam de empregadas domésticas, babás, porteiros, lavadores de carros e catadores de lixo.

É exatamente dentro desse contexto racista e discriminatório do pós-abolição que começa a ser gerada a reação a essa política pública elitista: a cultura da fresta como meio de reinvenção da vida e construção de uma noção de pertencimento ao grupo e ao espaço urbano. A ilegalidade no Rio de Janeiro, do ponto de vista histórico, foi portanto a opção que um estado racista e excludente deu à maioria da população da nossa cidade. Foi o poder público que não quis incluir.

Desnecessário dizer que quando falo em raça não uso o termo no sentido biológico ( pois que se sabe que raça como conceito biológico não existe). Uso raça no sentido social, histórico, político e econômico. Raça não existe nos laboratórios de biologia mas continua existindo nas cadeias, nas salas de tortura, nas grandes empresas e nas caçambas dos camburões.

Quando ouço falar, portanto, em choque de ordem, proibição de cerveja no Maracanã, ordenação das torcidas nos estádios, remoção de favelas e quejandos, me ocorre o seguinte: As pessoas que atuam na mídia mais poderosa e os responsáveis pelas políticas públicas têm alguma dimensão sobre o que significa, do ponto de vista cultural, a relação entre legalidade e ilegalidade por aqui? A coisa está sendo pensada apenas em termos criminais, quando até as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que o buraco é mais embaixo.

Incluir é simplesmente enfiar a polícia no morro, reprimir a violência, colocar o moleque pra tocar violino em orquestra de música clássica e estimular o garoto a praticar esportes? Isso pode ser um passo necessário (acho, com uma outra ponderação, que é) mas tento ir além e escapar da reflexão imediatista que a histeria da sociedade do espetáculo e do consumo acrítico da notícia impõe. E o além é dar a esse garoto o direito de conhecer de onde vem sua cultura, seus modos de sentir, amar, comer, se expressar, conviver na rua, respeitar o mercado [o de Exu, e não o financeiro] e, sobretudo, reconhecer que nós tentamos embraquecer o negro mas foi ele que nos empreteceu e nos civilizou poderosamente. Isso se faz com Educação maiúscula, e não com a reprodução pura e simples nos bancos de escolas de conteúdos desprovidos do contato com a realidade de quem aprende.

O povo bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na rua, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira - já que sem um chamego acolhedor ninguém vive direito. Excluído dos salões do poder, o carioca inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanjá, Janaína, Yara e Kianda. Colocamos na Virgem da Conceição e na Senhora dos Navegantes os seios fartos de deusa africana.

O povo do Rio teve que inventar a cidade [e a cidadania] que lhe foi covardemente negada e criou esse modo de ser que atropela convenções, confunde, seduz, agride e comove. Qualquer tentativa de ordem pública deve partir desse pressuposto e tramar, aí, instâncias de interlocução e o fomento de diálogos entre a população e o poder instituído. Há que se perceber, nos meandros do legal e do ilegal, a maneira que o carioca encontrou, ao longo de sua história, para subverter a escuridão dos tumbeiros, a caça aos índios tamoios e a ferida aberta pelos trezentos anos de chibata. Nós somos o povo que bateu tambor na fresta e criou a subversão pela festa.

Qualquer debate que ignore isso é provisório, equivocado e, como sempre, excludente. A leitura meramente institucional ou criminal de um processo que, como qualquer outro, é histórico e cultural, empobrece a discussão, estimula o erro e aponta soluções imediatistas que não se sustentam em um prazo mais longo.

Eu quero o convívio urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada é rua cheia, não é rua vazia de gente onde vez por outra se escutam tiros ou onde prevaleça a bandidagem mais deslavada ou a Ordem do Choque. Os mocinhos de O Globo, que encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho, o olhar enviezado e o clima de desconfiança entre seus habitantes, prestam um desserviço. A política pública, estimulada pela mídia mais reacionária e imediatista, que negue nossa peculiaridade e atue pelo viés exclusivo da repressão é fadada ao mais retumbante fracasso. Peço apenas isso: que se reflita sobre a atuação e o papel do Estado sem se perder a dimensão profunda do que nós, os cariocas, somos e construímos no tempo e no espaço. Administrar uma cidade, falar sobre uma cidade, escrever sobre ela, propor políticas públicas, implica conhecimento, reflexão, amor e interação com os seus modos de recriação da vida e produção de cultura, função que nos faz humanos e nos redime do absurdo da morte.


Eu continuarei daqui, dessa parte que me cabe no latifundio da grande rede, a bradar louvores pela civilização peculiar que João Candido, Zé Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Porto das Caixas, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na lage e a cerveja criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda.

A nossa maresia, conforme mestre Darcy Ribeiro ensinou, traz na asa do vento o cecê das pretas de Angola.

Abraço

domingo, 5 de dezembro de 2010

Da diferença entre humor e ironia.

...a ironia não é uma virtude, é uma arma – voltada quase sempre contra outrem. É o riso mau, sarcástico, destruidor, o riso da zombaria, o riso que fere, que pode matar (...) é o riso do ódio, é o riso do combate. Útil? Como não, quando necessário! Que arma não o é? Mas nenhuma arma é a paz, nenhuma ironia é o humor”.

O humor é uma conduta de luto (trata-se de aceitar aquilo que nos faz sofrer), o que o distingue de novo da ironia, que seria antes assassina. A ironia fere; o humor cura. A ironia pode matar; o humor ajuda a viver. A ironia quer dominar; o humor liberta. A ironia é implacável; o humor é misericordioso. A ironia é humilhante; o humor é humilde.”

(...)é nisso que é essencial ao humor ser reflexivo ou, pelo menos, englobar-se no riso que ele acarreta ou no sorriso, mesmo amargo, que ele suscita. É menos uma questão de conteúdo do que de estado de espírito. (...) Podemos rir de tudo, mas não de qualquer maneira. Uma piada de judeu nunca sera humorística na boca de um anti-semita. O riso não é tudo e não desculpa nada. De resto, tratando-se de males que não podemos impedir ou combater, seria evidentemente condenável contentar-se com gracejar. O humor não substitui a ação, e a insensibilidade, no que concerne ao sofrimento dos outros, é uma falha. Mas também seria condenável, na ação ou na inação, levar demasiado a sério seus próprios bons sentimentos, suas próprias angústias, suas próprias revoltas, suas próprias virtudes. Lucidez bem ordenada começa por si mesmo. Dai o humor, que pode fazer rir de tudo contanto que ria primeiro de si.”

Sponville, A. C. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

Foto de Urbano Erbiste

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Fracasso

O fracasso sempre teve um efeito positivo em mim. Tem sido meu melhor professor. Fez com que eu me detivesse um instante e olhasse para o meu comportamento auto-destrutivo. Permitiu-me começar tudo de novo, com toda a excitação e entusiasmo de um recomeço. E, ao aceitar o fracassso, fiquei livre da luta para superar uma sensação interna de fracasso. Comecei este estudo discutindo o problema da incapacidade das pessoas aprenderem pela experiência própria. Acredito que um fator de peso seja sua falta de disponibilidade para aceitar o fracasso. Estão determinadas a ser bem-sucessidas e, por isso, fazem erros repetidos. Aceitar o fracasso não é resignar-se, é aceitar a si próprio. Não ocorre nenhuma mudança real de caráter na terapia até que a pessoa aceite a si mesma como fracasso. Esta aceitação libera a energia vinculada à luta pelo sucesso, e a luta para provar a si mesma, tornando-a disponível ao crescimento. Da mesma maneira, a aceitação do destino muda o próprio destino. Ao desistirmos do esforço para superar o destino, deixamos de lado nossa estrutura neurótica de caráter e então pode emergir um caráter saudável, que determine um destino diferente.

Alexander Lowen
no livro Medo da vida

Imperdível!


Sábado 04/12 às 13 horas

São todos bem vindos, vamos festejar a resistência do nosso povo através da Capoeira. São Paulo te agradece Mestre Ananias

Programação completa www.mestreananias.blogspot.com

Pedro Peu

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Carta de repúdio ao programa exibido pela TV Record no Domingo Espetacular no dia 07 de novembro de 2010

Nós, mulheres indígenas reunidas no Encontro Nacional de Mulheres Indígenas para a proteção e Promoção dos seus Direitos na cidade de Cuiabá, entre os dias 17 e 19 de novembro de 2010, vimos manifestar nosso repúdio e indignação contra reportagem produzida pela ONG religiosa ATINI, exibida no dia 07 de novembro de 2010 em rede nacional e internacional. No Programa do Domingo Espetacular, da emissora RECORD, foram mostradas cenas de simulação de enterro de crianças indígenas em aldeias dos estado de Mato Grosso (Xingu), Mato Grosso do Sul (Kaiowá Guarani) e no sul do Amazonas (Zuruaha), pelos fatos e motivos a seguir aduzidos:
1. A malfadada reportagem coloca os povos indígenas como coletividades que agridem, ameaçam e matam suas crianças sem o mínimo de piedade e sem o senso de humanidade.
2. Na aludida reportagem aparecem indígenas atores adultos e crianças na maior “selvageria” enterrando crianças.
3. A reportagem quer demonstrar que essas ações nocivas aos direitos à vida das crianças indígenas são praticas rotineiras nas comunidades, ou de outra forma, são praticas culturalmente admitidas pelos povos indígenas brasileiros.
4. Que os produtores do “filme” desconhecem e por tanto não respeitam a realidade e costumes dos indígenas brasileiros. São “produtores Hollywoodianos”.
Vale esclarecer em primeiro lugar que a reportagem não preocupou em dizer que no Brasil existem mais de 225 povos ou etnias diferenciadas em seus usos, costumes, línguas, crenças e tradições. Essa reportagem negou aos brasileiros o direito ao conhecimento de que na década de 1970 a população indígena não chegava a duzentas mil pessoas ao ponto de antropólogos dizerem que no século XX os indígenas iriam acabar.
Se de fato os indígenas estivessem matando suas crianças, a população indígena estaria diminuindo, mas a realidade é outra, pois a população naquele momento em decréscimo hoje chega ao patamar de 735 mil pessoas, segundo censo de 2000 do IBGE.
A reportagem que mostra apenas uma versão das informações, não entrevista indígenas nem antropólogos que conhecem a realidade da vida na comunidade, pois senão iriam ver que crianças indígenas não vivem em creches nem na mendicância. Crianças indígenas são tratadas com respeito, dignidade e na mais ampla liberdade.
A reportagem maldosa e preconceituosa feriu intensamente os direitos indígenas nacional e internacionalmente reconhecidos, pois colocar povos indígenas e suas comunidades como homicidas de crianças é o mesmo que dizer que certas religiões praticam seus rituais matando suas crianças ou que a população brasileira em geral abandona suas crianças em creches, nas drogas e na mendicância se sem com elas se importarem. Mais, seria dizer que pais de classes médias altas jogam dos prédios suas crianças matando-as e que é comum famílias brasileiras em geral jogas seus filhos recém nascidos no lixões das grandes cidades, ou que os lideres religiosos são todos pedófilos.
Quais são as verdades dos fatos por trás das notícias caluniosas e difamatórias contras os povos indígenas.
Não seriam razões escusas de jogar a população brasileira contra os povos indígenas para buscar aprovação pelo Congresso Nacional brasileiro de leis nefastas aos povos indígenas? Ao dizer que os indígenas não têm condições de cuidar de seus filhos automaticamente estará retirando dos indígenas a autonomia em criar seus filhos, facilitando assim a intervenção do Estado para retirar crianças do convívio familiar indígena entregando-as a adoção principalmente por famílias estrangeiras. Na reportagem, o padrão de sociedade ideal é o povo americano, pois demonstrou que a criança retirada da comunidade agora vive nos Estados Unidos da América e até já fala inglês. Sociedade justa, moderna bem-feitora. Seria mesmo a “América” o modelo padrão de sociedade justa apresentado na reportagem? Vale esclarecer que a ONG religiosa ATINI e sua produtora de Hollywood têm sua sede nos Estados Unidos.

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Anta que Virou Elefante num Domingo Espetacular

Texto de autoria do professor José Ribamar Bessa Freire, coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e editor do site-blog Taqui Pra Ti, publicado na coluna de publicação aberta do CMI.

A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo: "Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer". Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou: "Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas".

Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o 'assassinato' de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o 'infanticídio', tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo - tololoc, tololoc - leva os bebês arrancados das garras dos 'criminosos' para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.

Leia na íntegra.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pacifista de verdade não chama a polícia.

Todo aquele que possui coisas da qual não necessita é um ladrão.
Mohandas Gandhi

Diante de todo blá-blá-blá que os últimos acontecimentos no Rio de Janeiro estão despertando, tomo a liberdade de dar minha opinião sobre a violência. Durante um certo tempo de minha vida me considerei uma pessoa pacifista. Por volta dos meus 21 anos fui me familiarizando com a não-violência de Gandhi e entendendo suas práticas de desobediência civil. Fiquei durante anos encantado com aquelas histórias e com o poder de ação de suas idéias. Na verdade ainda tenho profunda adimiração por sua história e por todo seu esforço ético em viver aquilo que falava e pensava. Talvez vocês estejam perguntando por estou falando no pretérito, certo? Acontece que não estou mais tão seguro a respeito do que chamamos de pacifismo. Quem não gosta da paz? Com exceção de alguns pirados e megalomaníacos, todo mundo gosta. Acontece que fui me dando conta da enorme contradição nos discursos e práticas dos que se dizem pacifistas. Inclusive em mim. Vou tomar um exemplo para isso: o discurso da necessidade do Estado. Independente da qualidade do Estado que temos, com a exceção dos anarquistas e de alguns religiosos, o concenso é que o Estado é fundamentalmente necessário em nossas vidas. Sem ele, muitos dizem, reinaria o caos e a destruição. Tá lá no Leviatã parte da base de nossas estruturas filosóficas dos últimos séculos. O Estado é necessário não apenas para organizar a vida social e política de seus membros, mas principalmente para mediar as tensões entre os diferentes interesses dos muitos grupos que fazem parte dele. Por exemplo, no atual momento, o Partidos dos Trabalhadores tornou-se o principal agente para apaziguar a luta de classes. O Estado consegue isso particularmente porque reivindica para si o monopólio da violência. O uso legítimo da violência pelo aparelho estatal é o que garantiria a paz social. Instituições de controle e contenção com as diferentes polícias, sistema carcerário, escolas, fronteiras, forças armadas, são agrupamentos interessados em oferecer, teóricamente, o melhor funcionamento possível do Estado. Pois então, todas essas instituições essenciais para o Estado são detentoras da expressão de algum tipo de violência, mas como são estruturadas e intrínsecas ao Estado a violência supostamente é aceitavel, "o Estado pode", dizem alguns. Isso me faz crer que alguém que se autoproclama um pacifista no sentido gandhiano ou em qualquer outra não pode de forma alguma legitimar alguma dessas práticas organizativas. Você liga 190 em uma emergência? Você não é um pacifista. Você acredita nas fronteiras nacionais de seu país? Você não é um pacifista. Você acha imprescindível a manutenção de forças armadas como marinha, exército e aeronáutica? Você não é um pacifista. Você pensa que quem cometeu algum ato infracional deve ser preso, confinado e sofrer as consequencias? Você não é um pacifista. Você acha que crianças e jovens só aprendem na escola e que devem ser boazinhas e obedientes com os professores? você não é um pacifista mesmo! Eu particularmente sempre desconfiei dessas coisas todas, mas como não há inocentes aqui... Podemos aceitar o pensamento que na atual conjuntura esse é um dos pontos em que deve seguir a prática do menos pior? Pacifista mesmo não delega responsabilidade. Pacifista mesmo busca em si e no que está próximo superar suas contradições. Pacifista mesmo quer coerência e não teme conflitos. Pacifistas são generosos e sem falsa modestia. Pacifistas são cuidadosos com as ideologias todas. Pacifistas não se escondem no momento de se posicionarem. Gandhi disse que em uma situação de dificil escolha, que talvez tenha que escolher entre ser convarde e violento, seja violento! O covarde nunca se posiciona e tenta agradar a todos de acordo com sua conveniência. Todos querem muita liberdade, mas sem abrir mão de sua segurança. Desejando as duas coisas a única que realmente conseguimos é a mediocridade. A classe média, o cidadão médio, o pensamento médio, o trabalho médio, a vida média não quer abrir mão de nada. Pergunte a você mesmo: o que estou disposto a abrir mão? Desculpe perguntar, esqueci que só sua vida é tão sofrida e que não há nada que possa fazer... Lembremos que eu também não sou um pacifista e estou apenas questionando alguns lugares que nos são ensinados desde pequenos como naturais e inevitáveis. Vivemos tamanha margem de fascismos e banditismos que a barbárie começa a dobrar a esquina com mais força. Não compro a idéia gratuita do banditismo social, apesar de reconhecer enormes atos de solidariedade e urgência em suas práticas. Bandido social pra mim foi Pancho Villa, Julio Urtubia, Emiliano Zapata, os inúmeros grupos de resistência nos regimes militares da América Latina, mas todos eles considerados bandidos por quem utilizou exatamente o Estado para manutenção de suas classes sociais privilegiados e essas sim perigosas, canalhas e covardes. Bom, por conta de coisas assim não acredito em quase ninguém que se diz pacifista. Nem mesmo em mim! Por isso parei de falar isso. Quando meu comprometimento foi aumentando com a lutas sociais fui percebendo que minhas idéias para algumas pessoas eram muito ameaçadoras. Não porque eu as forçava a aceitá-las, mas porque em sua grande maioria são pessoas que de algum modo não irão abrir mão de seus privilégios e algumas dessas questões estão confrontando isso. Sejam eles grande ou pequenos, lá estarão com as bandeiras da paz e da diversidade, mas com uma prática extremamente contrária a isso tudo. Confundo mais então. Ocupação de terra improdutiva é de direito de quem não tem nada, mas latifúndio, mesmo produtivo, também é de direito? Somos livres para decidir o que beber, comer e vestir, mas escolher entre coca-cola e pepsi também é? A questão do que é de direito ou não, da liberdade e do arbítrio é mais tensa do que podemos imaginar. Diante das instituições do Estado é o mesmo, os limites nem sempre são claros e onde achamos que existe liberdade na realidade há apenas arbítrio. No capitalismo também funciona isso. O livre mercado é livre só no nome! E nesse exato momento no Rio de Janeiro idem. No fundo não importa quem proclama a maior verdade dos mandos e abusos de um grupo ou de outro. A atual condição é por melhor controle, dominação e arbítrio e não há nenhum lugar para uma prática de liberdade honesta. Apenas um engodo de fragmentos arbitrários. A disputa é entre Estado e crime abençoados pelo Deus Mercado para subjulgar a população. Não há em nenhuma dessas ações espaço para promoção de paz. O triste nisso tudo é, para variar apenas um pouquinho, ver a população mais pobre morrendo. Soluções não virão desses espaços e para mim tem que surgir também dos maiores interessados. Tem gente que diz que o povo dorme... será? Como nunca fomos um povo realmente pacífico um pouco de revolta popular não seria uma coisa de todo ruim. Então, mãos a obra!

Você precisa ouvir o que eles têm a dizer


Por Plantando Consciência
Dezembro 2010 – primeira exibição do filme Cortina de Fumaça! (em Sampa)

“O modelo atual de política de repressão às drogas está firmemente arraigado em preconceitos, temores e visões ideológicas. O tema se transformou em um tabu que inibe o debate público por sua identificação com o crime, bloqueia a informação e confina os consumidores de drogas em círculos fechados, onde se tornam ainda mais vulneráveis à ação do crime organizado”. Relatório da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia (2009).

Cortina de Fumaça é um projeto independente movido pela vontade de colaborar na construção de uma sociedade mais equilibrada e alinhada com os princípios de liberdade, diversidade e tolerância.

O filme é um documentário ousado sobre um tema polêmico que interessa a todos e que precisa ser debatido de forma honesta. A política de drogas no Brasil e no mundo, baseada na proibição, precisa ser repensada porque muitas de suas consequências diretas, como a violência e a corrupção, atingiram níveis inaceitáveis.

O documentário, de 94 minutos, traz informação fundamentada para o grande público através de depoimentos nacionais e internacionais. Além do Brasil, o diretor Rodrigo Mac Niven (confira a entrevista que ele concedeu ao DAR) gravou na Inglaterra, Espanha, Holanda, Suíça, Argentina e Estados Unidos; visitou feiras e congressos internacionais, hospitais, prisões e instituições para conversar com médicos, neurocientistas, psiquiatras, policiais, advogados, juízes de direito, pesquisadores e representantes de movimentos civis. Dentre os 34 entrevistados, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso; o Ministro da Suprema Corte da Argentina, Raúl Zaffaroni; o ensaista e filósofo espanhol autor do tratado “Historia General de Las Drogas”, Antonio Escohotado, o ex-Chefe do Estado Geral Maior do Rio de Janeiro, Jorge da Silva e o criminalista Nilo Batista.

O filme fala sobre a relação entre o homem e as drogas psicoativas; revela a discordância entre a atual classificação das drogas e o conhecimento científico sobre essas substâncias; discute a situação particular da Cannabis (maconha), seu uso industrial e medicinal; levanta fatos relacionados ao surgimento dos projetos proibicionista e aponta para o colapso social que algumas cidades, como o Rio de Janeiro, vivem por causa da violência e da corrupção.

Veja o trailer:


SERVIÇO

Cortina de Fumaça (Brasil, 2010) – 94’. Site oficial
Português e Inglês com legendas em português
Dir: Rodrigo Mac Niven;

dia 14 (ter) – 19h
dia 15 (qua) – 17h e 21h
dia 16 (qui) – 17h e 21h
dias 17 (sex) – 20h Debate com o diretor após a sessão
dia 18 (sáb) – 19h e 21h
dia 19 de dezembro (dom) – 17h e 19h

Matilha Cultural
Rua Rego Freitas, 542 (Consolação).
Tel.: (11) 3256-2636

ENTRADA GRATUITA

domingo, 28 de novembro de 2010

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Peripécias

Queridxs amigxs e frequentadorxs deste butiquim! Com enorme felicidade faço esse convite para podermos nos encontrar em um espaço agradavel e cheio de iniciativa ao som de música tão inspiradora. A música cigana, dos balkans, latina e batuques afins possuem essa capacidade agregadora por definição. Música para alegrar os corações! Nessa sexta-feira estarei tocando algumas dessas preciosidades na Casa do Saci, espaço da qual faço parte e que já escrevi aqui, mas sempre vale lenbrar que é um lugar que busca por um lado pensar a aplicação dos princípios da economia solidária e geração de renda, e por outro, debater uma mudança da cultura manicomial e segregadora por uma antimanicomial e a favor da diferença.
Ótima oportunidade para conhecer a casa, a música e as pessoas! Para os que já conhecem, se esbaldarem um pouco mais. Convidem os amigos!

Será sexta-feira, dia 26 apartir das 19:30 até o sol nascer tocando música para gente feliz!
Casa do Saci que fica na Rua Wanderlei, 702 - Perdizes
$5,00 de entrada e breja gelada a 4,69 além de comidinhas muito boas.
http://barsaci.wordpress.com/

como chegar
http://barsaci.wordpress.com/como-chegar/

Um beijo e um abraço!

Abaixo um pouco do que vaí rolar:








quarta-feira, 24 de novembro de 2010

dúvida.

Fico aqui pensando quando é que essa gente vai parar de se pronunciar...

Lei anti-homofobia: uma resposta à onda do ódio

Patrícia Benvenuti
Da redação Brasil de Fato

Foi em uma escola pública de Taboão da Serra (SP) que Pierre Freitaz, então com 13 anos, foi vítima de homofobia pela primeira vez. As agressões vieram, inicialmente, na forma de piadas. "Nunca gostei de ser amigo dos meninos, eu andava mais com as meninas. Eu não gostava de jogar futebol, e aí começou".
As "brincadeiras" aumentaram, e os meninos passaram a cobrar "pedágio" para deixá-lo entrar na escola. Com medo, Pierre pagava, até que avisou que não entregaria mais o dinheiro. As ameaças se concretizaram. "Vieram com empurrões, a vioência foi crescendo até que quebraram o meu braço".
A humilhação seguinte partiu da própria escola. Durante uma reunião entre seus pais e os familiares de seus agressores, a diretoria deu a entender, segundo Pierre, que a agressão havia ocorrido devido à sua opção sexual. "Disseram que aquilo [agressão] aconteceu comigo porque eu era gay. Quiseram dizer que eles [meninos] estavam certos e eu errado", relembra.
A história de Pierre, que hoje é coordenador do Grupo de Jovens Ativistas da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, aconteceu há cerca de dez anos. A violência contra os homossexuais, porém, continua atual. No último final de semana, em São Paulo, cinco jovens de classe média (quatro deles menores de idade) xingaram e atacaram três pessoas com socos, chutes e golpes com lâmpadas fluorescentes na Avenida Paulista. Na delegacia, eles foram identificados por um lavador de carros, que contou ter sido agredido e assaltado pelo mesmo grupo.
Os quatro menores - três de 16 anos e um de 17 - chegaram a passar a noite em uma unidade da Fundação Casa, mas foram liberados no dia seguinte. O estudante Jonathan Lauton Domingues, de 19 anos, foi preso em flagrante mas responderá em liberdade pelos crimes de lesão corporal, roubo e formação de quadrilha.
Já no Rio de Janeiro, no domingo (14), um estudante de 19 anos foi baleado depois da 15ª Parada do Orgulho Gay, em Copacabana. De acordo com a vítima, um grupo de homossexuais estavam no Parque Garota de Ipanema quando foram abordados por militares, que hostilizaram os jovens. O 3º sargento do Exército Ivanildo Ulisses Gervásio confessou ter atirado no estudante. Além dele, outros dois militares são acusados de participar do crime. O delegado Fernando Veloso, da 14ª Delegacia de Polícia (Leblon), que investiga o caso, afirmou que a motivação das agressões foi a homofobia.
"Esses casos não são soltos. A gente não percebe, mas isso é corriqueiro. E na periferia e no interior [dos estados] ainda é mais difícil, onde as pessoas são mais conservadoras", assegura Pierre.

Mackenzie

O repúdio contra as agressões homofóbicas aumentaram a partir de terça-feira (16), quando começou a circular na internet o "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", divulgado no portal da Universidade Presbiteriana Mackenzie. O texto, assinado pelo chanceler da instituição, Augustus Nicodemus Gomes Lopes, critica o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização da homofobia.
O texto diz que a Igreja Presbiteriana é contra a lei “por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia”. O manifesto informava, ainda, que "a Igreja Presbiteriana do Brasil reafirma seu direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo”.
O texto foi retirado do ar e, em nota, a assessoria de imprensa da instituição afirmou que o pronunciamento sobre o PL 122 foi feito em 2007 e é da Igreja Presbiteriana do Brasil, Associada Vitalícia do Mackenzie. Além disso, de acordo com a nota, "o Mackenzie se posiciona contra qualquer tipo de violência e discriminação feitas ao ser humano, como também se posiciona contra qualquer tentativa de se tolher a liberdade de consciência e de expressão garantidas pela Constituição".
As situações causaram revolta na comunidade LGBT que, no dia 24, promoverá uma manifestação em frente à Universidade Mackenzie, a fim de protestar contra o manifesto. "Estamos indignados e queremos ações", afirma o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis.

Lei

Uma das ações mais imediatas, segundo o presidente da ABGLT, é precisamente o encaminhamento do PLC 122. Aprovado no Congresso Nacional, o projeto de lei visa à alteração da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, caracterizando como crime "a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero". O autor do delito, assim, ficaria sujeito às penas definidas em lei - como reclusão por até cinco anos.
Reis salienta que a lei será um avanço para a população LGBT que ainda não conta com uma lei específica para proteger os seus direitos. "Assim como existe a lei que criminaliza o racismo, queremos uma lei que criminalize a homofobia", explica.
Para a autora do projeto, a professora e ex-deputada pelo PT Iara Bernardi, os crimes recentes mostram a urgência da aprovação do PLC 122 que, segundo ela, se trata de um complemento a uma lei já existente.
"É uma legislação que abrange outras formas de discriminação, como [a discriminação] contra os nordestinos. Acrescentamos ali esse ponto, o da discriminação contra os homossexuais", reitera.

Senado

Iara destaca que o projeto foi aprovado por unanimidade no Congresso, onde houve uma ampla discussão com a comunidade LGBT e esferas do governo, como o Ministério da Justiça. O próximo passo, agora, é a aprovação no Senado, considerado um campo mais difícil devido às suas forças conservadoras. Para Iara, no entanto, a eleição de figuras mais progressistas para a Casa pode agilizar os trabalhos. "Espero que com a mudança no Senado, a lei possa ser aprovada", sustenta.
O maior desafio para a comunidade LGBT, entretanto, será superar a oposição de setores religiosos conservadores. Para Reis, a interferência religiosa ficou evidente durante o segundo turno das eleições deste ano, quando alguns grupos exigiram que os presidenciáveis se manifestassem contrários ao aborto e à união civil dos homossexuais. "Nossa reivindicação não é o casamento religioso, mas a união civil. Dizem que nós queremos destruir as famílias. De jeito nenhum, e pelo contrário: queremos construir a nossa família, do nosso jeito", afirma.
Atualmente, segundo Reis, 53 países no mundo possuem legislações específicas contra a homofobia - vários deles na América Latina, como Uruguai, Argentina, Colômbia e México, que conseguiram diminuir seus índices de violência.
Já no Brasil, os entraves à aprovação da lei, para Iara, só demonstram o atraso do país no combate à homofobia. "Esse é um tema que nem se debate mais em outros países, como na Europa. As agressões acontecem mas se sabe que são crime. O Brasil ainda está muito atrasado em relação a isso", critica.
Uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia (GGB) mostra que, a cada dois dias, um homossexual é assassinado no Brasil. Só em 2009, de acordo com a entidade, pelo menos 198 homossexuais foram mortos, um número 55% maior do que o registrado em 2008.
Na página www.naohomofobia.com.br/home/index.php, da Campanha Não Homofobia!, é possível aderir a um abaixo-assinado pela aprovação do PLC 122.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Beleza

Não conheço muito bem a história da Yeri, mas venho a algum tempo acompanhando suas fotografias e definitivamente são maravilhosas. A gente até tentou trocar alguns email, mas nosso inglês não tem ajudado muito...rs Ela é turca e fica vagando pelo mundo registrando alguns desses encontros. Recentemente ela foi para alguns países africanos e vem divulgando esse material. Tomo a liberdade de escolher algumas imagens da Etiópia e Benin. Não deixem de visitar o site dela. www.zeynepinyeri.com
Benin

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eu concordo.

A vida é perigosa... e não me interessa abrevia-la no raso do mundo!
Guimarães Rosa

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Por um Estado que proteja as crianças negras do apedrejamento moral no cotidiano escolar

Brasil, 20 de novembro de 2010, Dia da Consciência Negra

Excelentíssimo Presidente da República Federativa do Brasil, Sr. Luís Inácio Lula da Silva,

Em um ato político e humano, vossa excelência ofertou asilo a Sakneh Mohammadi Ashtiani como forma de preservar-lhe a vida, visto que a mesma corre risco de ser apedrejada até a morte física em seu país, o Irã.
Se me permite a analogia, pelo exemplo que vossa senhoria encarna para a Nação, creio que seria, além de político e humano, um gesto emblemático e valoroso se vossa senhoria manifestasse sua preocupação e garantisse “proteção” às crianças negras inseridas no sistema de ensino brasileiro, zelando por sua sobrevivência moral e sucesso em sua trajetória educacional. Como vossa senhoria já afirmou: “Nada justifica o Estado tirar a vida de alguém”, e, no caso do Brasil, nada justifica que o Estado colabore para fragilizar a vida emocional e psíquica de crianças negras, propiciando uma educação que enseja uma violência simbólica, quando não física, contra elas no cotidiano escolar. Sim, a violência diuturna sofrida pelas crianças negras no espaço escolar pode, em certa medida, ser comparada ao apedrejamento físico, visto que o racismo e seus derivados as amordaça. Assim, emocionalmente desprotegidas em sua pouca idade, as crianças passam a perseguir um ideal de “brancura” impossível de ser atingido, fazendo-as mergulhar em um estado latente, intenso e profundo de insatisfação e estranhamento consigo mesmas.
É fato que as crianças em geral não possuem natureza racista, mas a socialização que lhes é imposta pela sociedade as ensina a usar o racismo e seus derivados como armas para ferir as criança as negras, em situacões de disputas e até simplesmente para demarcar espacos e territórios, bem ao exemplo dos padrões da sociedade mais ampla. A escola constitui apenas mais uma instituição social na qual as características raciais negras são usadas para depreciar, humilhar e excluir. Assim, depreciadas, humilhadas e excluídas pela prática escolar e consumidas pelo padrão racista da sociedade, as crianças negras têm sua energia, que deveria estar voltada para o seu desenvolvimento e para a construção de conhecimento e socialização, pulverizada em repetidos e inócuos esforços para se sentir aceita no cotiano escolar.
Se há no Irã - liderados pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad - um grupo hegemônico que, embasado em uma interpretação dogmática do Islamismo e na particular percepção do que é legitimo, detém o poder de vida de morte sob as pessoas, não menos brutal no Brasil, temos um grupo no poder que, apesar de não deliberar explicitamente pela morte física de negros e negras, investe pesadamente na manutenção da supremacia branca, advoga pelo não estabelecimento de políticas que promovam a igualdade, e nega sistematicamente qualquer esforço pela afirmação dos direitos dos afro-brasileiros.
Excelentíssimo, a supremacia branca mina as bases de qualquer perspectiva de justiça social. A eliminação do racismo e de seus predicativos depende do questionamento do poder branco, visto que a subalternização dos negros é fonte permanente de riqueza, prosperidade e garantia de poder arbitrário e absoluto. Não seria está também uma forma de matar e de exterminar? Não estaria aí um protótipo do modelo de genocídio à brasileira?
Nossa aposta, sr. presidente, é que estando sob um regime democrático - ainda que permeado por estrutura historicamente racista que nega aos negros os direitos de cidadania – possamos contar com os órgãos públicos competentes no dever legal de zelar pela igualdade substantiva. Neste sentido, o Ministério da Educação (MEC) encontra-se submetido às leis nacionais e aos tratados internacionais promulgados pela ONU, o que legitima nosso direito de exigir que, sendo o órgão representante do Estado brasileiro no campo da educação, promova o bem estar de nossas crianças, e que não contribua, portanto, para a sua dilapidação moral.
Senhor Presidente, que legitimidade tem um governo que abraça o projeto político de ‘um país de todos”, mas que investe recursos públicos na disseminação de uma pedagogia racista entre os seus pequenos cidadãos? Um Estado que compra e envia para as escolas material pedagógico que contém estereótipos e preconceitos quer sejam étnicos, raciais e/ou de gênero pode ser compreendido como um Estado que fornece combustível ideológico para que a humanidade dos indivíduos tidos como ‘diferentes’ seja desconfigurada. Não nos parece que é a proposta política deste governo incentivar e disseminar ideologias racistas que promovem a deterioração da identidade e da autoestima da criança negra.
É neste sentido, senhor presidente, que a contenda sobre o livro de Monteiro Lobato deve ser vista apenas como mais um episódio em que os negros aparecem como inconvenientes e não encontram solidariedade por parte dos formadores de opinião e representantes da administração pública. Talvez tais agentes fossem mais solidários com a luta anti-racista caso os materiais pedagógicos contivessem referências depreciativas em relação às suas identidades. Talvez conseguissem perceber o escárnio se as personagens obesas fossem referidas como aquelas que “comem como uma porca cebosa”. Talvez se motivassem a protestar caso um livro contivesse um padre católico apresentado como “lobo que devora criancinhas”. Talvez também fossem contrários à distribuição de obras clássicas que contivessem a idéia preconceituosa de que: “os políticos agem no escuro como ratos ladrões”.
Entretanto, senhor presidente, ter no livro de Monteiro Lobato personagem negra que “sobe na árvore como macaca de carvão” é visto como algo absolutamente natural e que deve ser mantido para preservar a liberdade de expressão. No fundo querem que nós negros e negras subscrevamos tal obra como um elemento histórico que, constitutivo da “democracia racial brasileira”, deve ainda ser difundido nas escolas, a despeito dos estragos que possa produzir na formação de nossas crianças brancas e negras.
Aceitar tais práticas insidiosas é negar a nós mesmos e rasgar o histórico de resistências que marca a identidade negra. Não podemos aceitar que nossas crianças negras sejam sacrificadas e usadas para o entretenimento, deleite e regogizo das crianças brancas. E nós, seus pais e educadores, lamentaríamos ver nossas crianças obrigadas a se defenderem de pedradras usando pedras contra “Pedrinhos”.
A era da inocência acabou, como nos lembra a militância negra! Os chamados textos clássicos não representam a última (sacrosanta) palavra sobre o mundo social. Não é segredo que muitos dos textos sob tal categoria são na verdade a bíblia da dominação branca-masculina-heterosexual, representando uma falsa imagem sobre quem somos. Propicia, por exemplo, que homossexuais sejam agredidos no cotidiano escolar e/ou na calada da noite, nas esquinas escuras das nossas cidades.
Uma educação que oferta estereótipos étnicos, raciais, de gênero e/ou homofóbicos facilita que jovens, ainda que supostamente “bem educados”, organizem práticas criminosas como o “rodeio das gordas”, ocorrido na UNESP ainda agora. É pelo investimento possessivo na supremacia branca, assegurado pela desumanização dos negros, que pessoas queimam índios e moradores de rua; é a partir de uma educação sexista que jovens tornam-se preconceituosos a ponto de espancar mulheres em pontos de ônibus, por acreditarem que são prostitutas. É a sistemática exposição de nossos meninos e jovens a idéias e práticas machistas que constitui terreno fértil para que quando homens crescidos, diante da percepção de ameaca á sua masculindade, assassinem suas namoradas, esposas e/ou amantes, conforme constatamos nos nossos noticiários.
Assim, senhor presidente, trata-se de legítimo e necessário o parecer do Conselho Nacional de Educação - CNE/CEB Nº: 15/2010, sobre as medidas de combate aos estereotipos e preconceitos na literatura. Não se trata de censura política, como se quer passar, mas de proteção social das nossas crianças. Pois, assim como um buquê de rosas que apesar da beleza contém espinhos pontiagudos, os livros com teor discriminatório ferem. Alguns ferem de maneira profunda e indelevelmente marcam trajetórias de vida. Logo, podemos questionar se um educador que, ao dar a rosa, alerta sobre a existência de espinhos, estaria censurando a existência da rosa e banindo-a do jardim, ou estaria apenas, responsável que é, cumprindo o dever de proteger a criança pequena?
Há que se ter cuidado com nossas criancas que, a partir de sua próspera administracao, sr. presidente, mais cedo adentram o cotidiano escolar. Se elas entram mais cedo na escola, é fato que também experienciam mais cedo o contato sistemático com um cotidiano discriminatório, repleto de violência racial, vivendo precocemente a dor e o sofrimento de serem desumanizadas com qualificativos como macaco e urubu, assim como Monteiro Lobato dissemina em suas histórias.

Infelizmente, sr. presidente, nós negros adultos, ainda que tenhamos sobrevivido a esses mesmos sofrimentos em nossas histórias de vida, não conseguimos encontrar remédio eficaz para curar a dor que corrói a alma de nossas crianças pequenas. Não descobrimos ainda palavras mágicas que apaguem da memória de nossas crianças a vergonha da humilhação e do escárnio público. A valorização da beleza de nossa pele e o histórico de luta de nosso povo apenas amenizam o sangramento moral. É difícil se contrapor a um ideal de beleza e de sucesso que reserva um lugar inferior na sociedade aos indivíduos de pele negra.
Sr. Presidente, em nome de seu legado que engrandeceu este país e retirou da miséria milhões de brasileiros, não permita que, sob sua administração, mesmo nestes momentos finais, prevaleça um modelo de Educação que, apenas assentado em discursos contra o racismo e o preconceito racial, utiliza-se do poder e dos recursos públicos para a compra de materiais que veiculem estereótipos e idéias preconceituosas perniciosas para milhões de crianças, futuros cidadãos, que no futuro poderiam lembrar-se não destas “leituras”, mas sim das incomparáveis conquistas da era Lula.
Vossa senhoria que afirmou em seus discursos a importância do combate ao racismo na sociedade; que, através da primeira lei assinada em seu governo - Lei 10.639, em 09 de janeiro de 2003, tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira,observe atentamente para que os profissionais do Ministério da Educação não contradigam os seus pronunciamentos públicos. Talvez, sr. presidente, não haja mais tempo para corrigir o descaso desses para com as políticas de educação em áreas quilombolas, visto que os recursos empenhados no orçamento 2009, sequer, até a presente data, foram utilizados para o pagamento dos convênios aprovados, impossibilitando assim que as escolas quilombolas recebam material didático e pedagógico adequados. Certamente não há mais tempo para elaboração e distribuição de livros para subsidiar a prática pedagógica anti-racista, visto que a política foi interrompida em 2006 juntamente com o fim do Programa Diversidade na Universidade – que mesmo tendo recebido o aval positivo do BID para uma segunda edição ampliada, por ter sido avaliado como um programa modelo para a América Latina, não contou com a aprovação das gerências superiores do MEC.
Infelizmente, excelentíssimo presidente, não há tempo também, certamente, para lograr as metas de formação de professores e professoras para a educação das relações etnicorraciais, visto que as secretarias de educação estaduais e municipais, devido à ausência de uma consistente campanha de combate ao racismo na educação, comandada pelo MEC, pouco se engajaram para alcançar esse objetivo.
Essa triste realidade, sr. presidente, atesta que Fernando Haddad, ministro da educação, deixará, infelizmente no legado de seu governo, a triste memória de um trabalho inexpressivo no que concerne à políticas públicas para o combate ao racismo e a valorização da história e cultura afro-brasileiras. Ele que, mesmo tendo a faca e o queijo nas mãos, pouco fez para o fortalecimento da educação anti-racista e anti-discriminatória no país, encerra seu mandato sinalizando aliança com vertentes contrárias às conquistas sociais, dificultando, assim, que o Conselho Nacional de Educação cumpra o papel que lhe é devido. A devolução doparecer CNE/CEB Nº: 15/2010 dá bem a dimensão do retrocesso político e concretiza uma velada censura às políticas de combate ao racismo pelo MEC. A atitude do ministro Haddad traduz sua vontade política e fornece elementos para compreendermos o porquê do inexpressívo desenvolvimento das políticas anti-racistas no interior do MEC e, a partir dele, nos sistemas de ensino.
Assim presidente, o senhor que compreende o combate ao racismo como uma luta pela justica social, não permita que o Estado brasileiro retroceda nas conquistas dos direitos dos afro-brasileiros: não deixe sua consciência passar em branco! Relembrando suas palavras am relação à dívida do Brasil para com o continente africano: "Têm coisas que a gente não paga com dinheiro, mas com solidariedade, companheirismo e sentimentos", seja solidário à Sakneh, mas também aproveite o 20 de novembro e renove o seu compromisso com o Brasil negro. Em nome das crianças negras e brancas, em nome dos filhos do Atlântico negro, manifeste-se favoravelmente às orientações do Parecer CNE/CEB Nº: 15/2010 – (http://www.euconcordo.com/com-o-parecer-152010).


Respeitosamente,

Eliane Cavalleiro

Doutora em Educação pela Faculdade de Educacao da USP, 2003 – coordenadora executiva de Geledés – Instituto da Mulher Negra, de 2001 a 2004; coordenadora de Diversidade da SECAD/MEC, de 2004 a 2006; ex-professora adjunta da Faculdade de Educacao da UNB – de 2006 a fev/2010; presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores negros, de 2008 a jul/2010, é cidadã brasileira, que luta para que seus netos e bisnetos e demais gerações tenham o direito a uma verdadeira educação anti-racista

São Paulo celebra Dia da Consciência Negra com shows na Praça da Sé

(Eduardo G.) A capital paulista tem uma programação musical especial para comemorar o Dia da Consciência Negra, celebrado no próximo sábado, 20 de novembro. A Praça da Sé, no centro da cidade, será palco para shows de Rap, Samba, Soul e Funk.

Estão confirmadas as apresentações do rapper Emicida, da banda Funk Como Le Gusta, de Toni Tornado, Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, Chico César, Lady Zú e Gerson King Combo, além da discotecagem de DJs Théo Werneck.

As atividades de celebração pelo Dia da Consciência Negra começam às 10h00 com uma Missa Afro. Ao meio-dia será realizado o Encontro de Congadas, com cinco grupos de congadas e samba de bumbo do interior do Estado se apresentando no palco. Logo em seguida começam os shows. O primeiro artista a subir no palco é o rapper Emicida.

Ainda dentro das festividades, no dia 27 de novembro será realizado o IV Encontro Paulista de Hip Hop, no Memorial da América Latina. O evento terá palestras, oficinas e outras atividades relacionadas ao mundo do Hip Hop, inclusive - é claro - shows, como do rapper MV Bill. Confira as informações dos eventos:


20/11/2010 - São Paulo/SP
Show da Consciência Negra - Praça da Sé, s/n
Horário: a partir das 10h00
Ingressos: Grátis

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Carta de um pai que não internou seu filho.

Por Fabiana Leite

Conheci a história de Geraldo e André Peixoto há seis anos, durante reportagem de balanço da reforma psiquiátrica. André teve o primeiro surto, sinalizador da esquizofrenia, na passagem para a idade adulta. O pai, Geraldo, horrorizado com os grandes hospitais psiquiátricos por onde André passou, o retirou de lá, mudou a vida, trocou a carreira de executivo pela de professor de natação para ficar ao lado do filho. Nesses anos, tornou-se um militante do direito dos pacientes de não serem trancafiados em hospitais e clínicas, mas acolhidos por serviços ambulatoriais e pela comunidade.

Na primeira entrevista, Geraldo me surpreendeu por não esconder as agruras de viver com uma pessoa com uma doença psiquiátrica. Não dourava a pílula. Mas defendia com carinho sua escolha, com espaço para a leveza _como a história de um amigo da família, também portador de esquizofrenia, que insistia ser uma águia. Geraldo o acolhia como um pássaro. Naquela época, André não estava bem, os médicos não acertavam o remédio. Tentamos fazer uma foto de ambos, mas André não quis.

Coincidentemente, meses depois, encontrei Geraldo durante uma “blitz” dos conselhos de psicologia e do Ministério Público em grandes unidades psiquiátricas que ainda persistem em diversas partes do País. Em uma das instituições, lá estavam pacientes amarrados, sem roupa. Um deles perguntou a Geraldo se era “papai noel” (por causa da barba branca) e pediu: “alta”!

Depois de o poeta Ferreira Gullar chamar a lei da reforma psiquiátrica de “idiota” e de defender a internação dos filhos, quis ouvir novamente a opinião de Geraldo (você pode conhecê-la aqui). Seguiam vivendo juntos. Sugeri novamente a foto de ambos. André estava cada vez melhor, disse o professor. Cuidava do pai. Estava cada vez mais companheiro, relatou Geraldo. E a foto deu certo.

Há cerca de uma semana, André, que tinha 47 anos, morreu vítima de um infarto do miocárdio fulminante, em casa, ao lado do pai. Compartilho com vocês, com autorização do autor, trechos da carta que Geraldo enviou a centenas de amigos e apoiadores:

Há exatamente sete dias, nesta mesma hora, André, meu filho querido, morreu. Tudo começou e terminou comigo. Muitos, sequer o conheciam. Outros, o conheceram, e outros, até o acampanharam e cuidaram dele. Estas pessoas ficaram, indelevelmente, imarcadas em nossa memória.

André nasceu duas vezes, uma, de Wilma, sua mãe, e a outra, de mim, quando o assumi, depois de retirá-lo de um hospital psiquiátrico. Portanto, sinto-me fiador de todo esse querer bem, que vocês todos têm demonstrado por ele.

Tive um privilégio, uma graça por viver junto dele essa experiência, absolutamente fantástica, nestes vinte e cinco anos, desde o dia em que o retirei de um hospital psiquiátrico, até aquele momento, em que o vi, estendido no sofá da minha sala. Ele foi o meu grande mestre, mostrou-me o caminho, o caminho que ele percorreu e que, apesar da violência das crises e, das crises de violência, foi paradoxalmente, delicado e extraordinário. A experiência foi “humana, demasiadamente humana”. Fui atirado à correnteza da vida e da psicose, deixando-me levar sem resistência, aceitando e usando-a a meu favor, sabendo, como bom nadador, que se não o fizesse, iria , apenas, me exaurir. A correnteza, agora queridos amigos, se diluiu, se desfez, deixando-me nadar livremente. A vida foi maravilhosa comigo, por ter-me permitido esse encontro.

Valeu a pena, garoto! Valeu muito a pena!

André vive! Ontem, André era o meu objetivo – hoje, deixou de ser, pois eu o carrego comigo…

Obrigado, obrigado, obrigado…

Geraldo

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de temas de interesse da saúde pública e dos planos privados de saúde. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.