quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

"Tô sentado na beira do rio esperando a sujeira passar".*

Foi mais ou menos assim na noite de anteontem. Caminhava numa avenida perto de casa em direção a residência de uma amiga, que estava com outros amigos que iriam apresentar um teatro. Nada de mais, era algo corriqueiro. Eis que vejo, no semáforo um carro enguiçado. Dois homens descem do carro e tentam inutilmente empurrar o veículo para um lado qualquer. Fui espontâneo! Arrumei as sacolas com algumas latinhas de cerveja que carregava em meu punho e me lancei ao lado desses homens na traseira do carro para ajudá-los. Ele se moveu muito pouco e desistimos todos. Olhei para um dos homens e disso sem nenhuma pretensão “vai uma mão aí?”, mas já com as duas mãos em pleno esforço. Foi aí que aconteceu o inusitado. A criatura me responde com um certo desdém e um seco “parece que sim, né?!”. Enquanto me recomponho do choque um dos homens vai falar com o motorista e o outro não me olha mais. Vou me afastando do carro, saindo do meio da rua e voltando para a calçada enquanto outros motoristas enlouquecidos buzinam e xingam. Ali naqueles poucos segundos observo a conversa entre os dois homens e o motorista. Eles simplesmente não me dizem nada, nem um aceno, foi como simplesmente se eu não tivesse tentado ajuda-los. Nesse momento observo melhor e percebo os “tipos”. Homens brancos, bem vestidos com suas roupas sociais, possivelmente voltando do trabalho que discutiam como ganhar mais alguns milhares naquele dia em seu carro que não custa menos de 80 mil reais. Sou tocado por um tremendo mal-estar e caminho como se tivesse levado um soco na cara! Não posso evitar o pensamento e a crítica de imaginar que´tipo de pessoa é essa que após receber ajuda de um completo estranho nem sequer lhe dirige um simples obrigado. Percebam que não se trata de ajudar alguém esperando receber o que quer que seja em troca, mas me parece o mínimo de reconhecimento necessário para a vida coletiva. Penso comigo que é assim mesmo, me justifico, sinto pena desses homens em suas roupas e carros caros, afinal que miséria espiritual acompanha sua existência que não lhes possibilita agradecer uma simples gentileza, e até mesmo ser rude por isso! Sou também tocado pela sensação de ter sido um pouco trouxa. Imagine outro cenário, como por exemplo um palestino ajudando a empurrar um veículo militar israelense na faixa de Gaza. Não dá! Alguém pode dizer que essa seja uma comparação um tanto forçada. Não acho. Sou um ciclista e aqueles homens atendem a um perfil clássico de alguém que não respeita o ciclista, o pedestre ou mesmo outros veículos. A rua é dele e foda-se todo mundo. Esteriótipo? Motoristas em carros populares também não respeitam muito bem ciclistas e pedestres. Adiante então. Não tenho capacidade de reconhecer numa olhada rápida um relógio que pode custar alguns milhares de reais de um adquirido no camelô , mas os três homens certamente não usavam a versão mais popular. E sinto muito, mas não posso acreditar também que tudo certo num lugar como São Paulo pessoas andarem com um rolex como se estivessem em Manhattan. É no mínimo indecente e caso alguém coloque uma arma na cara de uma criatura dessas eu certamente não irei sentir qualquer piedade por sua perda. Salve Ferréz! Penso que não preciso falar nada sobre luta de classes. Será? Santa ideologia Batman! E vamos em frente, porque eu não gostaria de perder o teatro desses ilustres visitantes. Alguns pensamentos ainda me ocorrem antes de meu destino. Fico lutando com a possibilidade de voltar a um antigo preconceito que tive durante alguns anos de minha vida. Graças a São Bakunin e São Kropotkin tomei conhecimento da importância de uma crítica social e política do mundo que me cerca. Fico sempre intrigado com a opulência de uns e a miséria de tantos. Confesso meus caros, que por um bom tempo tinha verdadeira ojeriza da ostentação e do luxo alheio. Não era capaz de uma conversa de mais de 5 minutos com alguém que em meu julgamento fizesse parte dos 10% mais ricos desse país. Não poderia esconder meu desconforto diante de alguém que indubitavelmente vivia de modo tão confortável enquanto tantos estavam com o sono comprometido por tantas desigualdades. Entretanto o tempo passa, e graças a muitas outras coisas, aprendemos que o preconceito seja ele qual for, é sempre limitador, uma amarra, um tipo de prisão. Vamos percebendo que se acreditamos que se não importa o tipo de roupa que uma pessoa veste, isso deve servir para os dois lados da moeda (mesmo? será que isso serve para casacos de pele?). Contradições, quantas contradições desse bicho estranho chamado hommo demens! O problema não é apenas o capitalismo, ou o dinheiro em si, mas as relações que são estalecidas nesse cenário. O capitalismo elaborou e acentuou as desigualdades, mas muitas delas já estavam lá. Entretanto não sejamos ingênuos. Como disse uma amiga querida numa conversa exatamente sobre isso - “Ale, não sei se é bem uma questão de preconceito, é de conceito mesmo!”. Tudo bem, estou quase chegando no meu tão desejado encontro e outras coisas começam a me ocupar a cabeça. Apenas me dou conta que apesar das diferenças todas nessa cidade que amo tanto, nem tudo se perdeu. O porteiro do prédio de minha amiga é de uma simpatia incrível e me recebe com um sorriso largo e tranqüilo. Entro no elevador e penso que meu encanto com o Profeta Gentileza permanece inabalado. Não acho que há possibilidade de voltar a ter aquele preconceito de outros tempos, mas sem dúvida alguma, na direção do que disse minha amiga querida, elaboro melhor meus conceitos.

*o título é um refrão de uma canção da banda Eddie.

Um comentário:

blog disse...

cara ke esquema loco que vc posto ai.
mas eu gostei e naum posso deixar passar sem um comentário
eu naum sou um bom escritor mas tb tenho um blog
blog.bubhouse.com.br