segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sayonara Japao.


Estou partindo do Japão. Depois de tanto tempo tentando chegar, cheguei e agora me vou. Depois de outro tempo tentando ficar, não estarei. Seria bom ficar um pouco mais, entretanto alguns me dizeram que não seria possível. Fiquei pensando sobre minhas intenções a respeito de meu tempo no Japão. Imaginei como poderia ser a vida agora que estou aqui. Lembrei de quase todas as vezes que desejei chegar. Agora me dou conta de uma partida não esperada. As vezes o esforço parece não ser suficiente. Lembro de muitas vezes escutar algo assim, mas confesso que nunca tinha sentido isso de maneira tão nítida. Engraçado como o tempo todo e em cada gesto para atender não apenas as burocracias do Estado, mas também para chegar perto de algumas pessoas e de alguns lugares, a gente precisa provar que não é culpado. Muitas vezes a sensação é de alguém dizendo: “você esta errado!” Mas puxo pela memória e não consigo saber do quê! Não sei porque isso não passa e tudo caminha para mostrar exatamente o oposto. Eu não fiz nada de errado, não faço e nem pretendo fazer, então porque tanta desconfiança? Tá legal, ordens são ordens e vocês não tem que ficar pensando sobre essas coisas. E reconheço que errei em alguns lugares e com algumas pessoas, mas não mais do que qualquer outro. Eu não sou um criminoso desgraçado! Aí você me diz que é assim mesmo. Não, eu não acho que seja assim mesmo. Depois ainda me perguntam o que eu posso fazer. Não da pra mudar isso? “Tem que aceitar e ir embora”. Não meu caro, eu não aceito isso. Eu não reconheço essa autoridade. Eles nem se deram ao trabalho de perguntar de onde vim e porque fiquei... Apenas me disseram que deveria ir embora. “O seu prazo termina em um mês. Assine os papéis!” Tentei argumentar mas não adiantou, ordens são ordens. Aí aparecem outras pessoas dizendo que lamentam muito, principalmente porque muitos acabam pagando por alguns poucos. É verdade, eu sei e me dizem isso com a melhor das intençõs. AH! Estou cansado, mas não para dizer que eu aceito. Eu tenho um nome, não sou apenas “os outros”. Eu tenho minha história, minha caminhada e meus sonhos. Eu não aceito mesmo! Sempre ouvi dizer que somos inocentes até que se prove o contrário, mas hoje não é bem assim. Nas fronteiras não é assim. Seja na América Latina, no hemisfério norte, no ártico ou em alguma ilha perdida no sul. Não apenas seus olhos, mirando de dentro daquele lugar tão sufocante que fica o posto da imigracao, por de trás do balcão, mas é seu corpo inteiro dizendo: “eu sei que você esta errado, estou aqui apenas pra descobrir onde”. Isso me fez lembrar das inúmeras “gerais”, vulgo revista padrão, que levei da nossa tão gentil polícia militar do Estado de São Paulo. Um dia me pararam quase na porta de casa. Quatro homens armados até os dentes apontam suas armas e dizem para mim ir bem devagar até a parede, colocar as mãos na cabeça, abrir as pernas e com muito “cuidado”, tocam em mim a procura de... (do que mesmo, hein?) Eu disse que não precisava nada daquilo, moro a duas casas dalí! O policial apenas disse: “fique quieto que estou fazendo meu trabalho. Como eu posso saber que você é um cidadão de bem?” Cidadão de bem? Exatamente senhor policial, como você pode saber? Então, você parte do pressuposto que eu não sou e me trata assim? Novamente vozes dizem que é isso mesmo. Insisto: eu ainda não aceito! Fronteiras entre países ou nas ruas da minha cidade, qual a diferença? Um braço armado me condena sem mesmo imaginar de onde venho. Que triste isso... Ainda vão existir aqueles que tentaram argumentar que não da pra viver sem essas coisas, o mundo é mal, existem muitos seres terriveis que precisam ser contidos, e eles (policiais e fronteiras) estão aqui para nos proteger. Que pena mesmo! Eu não tenho essa escolha, certo? A escolha de dizer que não quero fronteiras e nem policiais apontando armas para minha cabeça dizendo que esse é seu trabalho e que isso me protege? Tenho? Fala aí? Sim, eu continuo não aceitando! Agora as autoridades do governo do Japão dizem que eu não posso ficar aqui, mas eu pergunto para eles e comunico que fiz tudo que me disseram - trouxe todos os papéis - porque isso não serve? Afinal de contas, porque somente depois de meses e meses, esperando, cumprindo suas leis, me dizem que isso tudo não serve? Eu ainda lembro de seus olhos senhor oficial da imigração me acusando de não sei o que e dizendo para mim assinar logo porque você não queria perder 5 minutos de seu almoço. Você nem se deu o trabalho de esperar eu ler o que aquele maldito documento dizia! O senhor nunca ouviu falar que devesse ler antes de assinar um documento? Mas você apenas repetia “Assine logo! Assine logo!” Eu lembro da sua pouco disponibilidade para me explicar o que deu errado. Apenas falava que as leis mudaram sem me dizer o que foi que mudou! Estava ali pra cumprir suas ordens, certo? Eu cumpri suas leis, mas mesmo assim não foi suficiente. Diga-me então o quanto é suficiente? Conheci muita gente que esta em terras niponicas e apesar dos pesares tenta entender e colaborar. Por exemplo, quando na fábrica a produção esta atrasada e o chefe diz que precisa contar com o apoio de todos pela bem geral, que todos precisam trabalhar um pouco mais. Esse sacrificio é para o bem de todos, certo? Tá legal, a maioria já trabalha 14 horas diárias, o que serão mais 2 ou 3 horas? Vamos lá, pelo bem de todos, né?! Eu só não vi ninguém falando que cuidar dos filhos um pouco mais era para o bem de todos. Eu só não vi ninguém perguntar se dá pra garantir os direitos trabalhistas pelo bem de todos. Eu também não vi nenhum chefe elogiar a mãe que teve que ficar em casa porque o filho estava doente. Ah, entendi... A gente se esquece que brasileiro é malandro e provavelmente isso é uma desculpa para não trabalhar, afinal de contas nós viemos lá do outro lado do mundo só para atrapalhar a vida de vocês. Ainda não perceberam isso? Provavelmente o senhor inspetor da imigração conhece essas histórias e deve imaginar que eu vim aqui pilhar seu país, não é isso que todos os imigrantes fazem? Opa! Desculpe, não é pilhar, é saquear, aproveitar o trabalho suado de vocês, estou certo? Claro que os países que fazem parte do chamado G8 nunca se comportaram assim. Eles são ricos porque são trabalhadores honestos. O extermínio dos povos originários das Américas, África, Ásia e de todo o restante do mundo é mero detalhe. O G8 nunca saqueou ninguém. São governos de homens integros e honrados, estou certo nisso também? Nós, viajantes do hemisfério sul, habitantes de terras não tão prósperas é que somos bárbaros e de um modo geral não sabemos nos comportar. Quer saber de uma coisa? Talvez senhor oficial inspetor da imigração, deveria te agradecer por me mandar embora daqui. Talvez você esteja me fazendo um favor e eu como sou um mal agradecido não consigo enxergar. Eu entendi, estou indo. Não empurra não! Mas antes deixa eu te falar um coisa, algo que talvez em alguma outra situação posso te fazer pensar e quem sabe avaliar de outro modo. Eu gostaria de dizer que tudo isso que escrevo é apenas orgulho ferido, desapontamento ou algum tipo de frustração, mas juro que não é. Até tem um pouco disso sim, mas nem dá pra dizer o quanto... Tem é uma coisa maior. A minha não aceitação é cheia de dor porque não é passiva e eu tenho certeza que é isso que vocês mais querem de mim: passividade e apatia. Mais do que qualquer outra coisa, não apenas o governo de vocês aqui, mas todos os que existiram e ainda existem por esse mundo querem isso: o rebanho, a mentalidade bovina. Querem a obediência de seus fiéis súditos. E isso meus quase caros amigos, nunca teram de minha parte. Eu não posso fazer nada agora além de ir embora, certo? Não, eu posso escrever, posso falar, posso sabotar isso de muitas formas, posso viver sem sofrer da sua normalidade e de seu egoismo. Já diziam por aí que a normose e a egoescleroso atinge multidões . Não duvido disso! Agora eu irei partir e talvez volte, ou não. Seu Estado é medicoridade. Eu não! Seu julgamento e preconceito de algo ruim que eu tenha feito (?) não me causa culpa. Eu vou porque você tem medo, porque você não reconhece a verdadeira liberdade de um ser humano andar por esse planeta. Talvez nunca tenham pensado sobre isso, mas essa é a minha casa! Você me expulsa do Japão, mas tem um detalhe seu idiota: eu vivo nesse planeta e daqui você não pode me tirar. Usa sua força para me obrigar a sair dessas terras que não são suas. O Japao não 'e uma propriedade privada, mesmo que voces tentem. Eu conheço os Ainus. Conheço o povo que vive aqui antes de você e de seu Estado. Eles é que sempre souberam cuidar bem desse lugar e agora estão confinados na ilha do norte. Seu país não é seu e nem o meu é meu. Eu amo minha cultura e minhas tradições. Sei bem de onde vieram e quem foram os negros, índios e brancos que estão em meu sangue, mas isso nada tem haver com as fronteiras do Estado. O negros todos que foram sequestrados da África e que vieram a formar meu povo não trouxeram o Estado e seus soldados. Vieram de lá povos que guardaram dentro de si sua religião, sua língua, sua arte, seu ritmo! Essa é a diferença de soldados e guerreiros. Soldados obedecem ordens. Guerreiros lutam sempre. Lutam não para dominar alguém como soldados que aceitam sua hierarquia sem questionar. Guerreiros conquistam a si mesmo e nunca param de ir em frente. Sabe, eu vi para cá porque gostaria de entender melhor de coisas assim também. Você esta me vendo? Aprender e compartilhar. Ainda há muito para aprender! Eu as vezes não sei bem onde estou, me falta humildade e paciência para ser um guerreiro capaz de viver o bom combate, mas meus avós negros e índios podem me ajudar. Eles conseguiram isso. Será que vocês que estão nas fronteiras não podem saber disso também? Esqueci que vocês são soldados que obedecem ordens, como podem saber? Digam que estou errado! Gostaria de entender como é que surge a arte nesse lugar, como vocês dançam e cantam. Eu não vim aqui pegar o que não é meu! Me mostra tua luta e reconhece a minha! Nossas lagrimas possuem o mesmo gosto. Vim andar por essas terras porque imaginava poder aprender outras coisas, compartilhar sabores e idéias. Eu só queria ficar aqui para depois dizer com um pouco mais de clareza que conheci vocês melhor. O que foi que aconteceu, não querem que eu os conheça? Não querem olhar para mim? Eu mesmo tento dar conta disso. Tem um monte de gente que quer sim. Eu vi e falei com pessoas bonitas daqui. Nós cantamos e dançamos juntos! Foi lindo e eu não lembro de ter que mostrar meu passaporte para isso acontecer. Não vou cometer o erro de dizer que governos são sinônimos de povos. Acho que o Brasil mesmo é um bom exemplo disso. Os governantes de lá a muito e muito tempo são um lixo e imprestaveis, mas eu nunca poderia achar isso de meu povo. Minha cultura é magnifica! Eu sei que a de vocês tem coisas assim também. Foi por isso que eu vim. Eu só gostaria de ver com meus olhos, então por que tantas portas fechadas? Por que vocês escondem as chaves? Mas não se preocupa porque eu não vou sair falando mal daqui por aí. Seria injusto. Tem coisas que eu aceito. Aceito muito!
Eu cantei e dancei com homens e mulheres daqui. Eu ri com pessoas lindas daqui! Pessoas que me disseram “senta aqui com a gente! Como você tá?” Como a obasan do mercadinho que sempre estava sorrindo. Sentirei falta dessas coisas. Também sentirei falta de correr no fim do dia entre os tanbos, de tocar meu berimbau nos jardins do castelo da cidade; de assitir novamente o hanabi; de ver tantas pessoas de yukata no verão; de comer milho doce e batata com manteiga no matsuri ou no bon-odori. Eu vou sentir falta de ver as crianças voltando sozinhas da escola em bando e levantando o braço para atravesar a rua; Também sentirei falta de entrar em alguma loja e perceber que esta tocando bossa nova. Você sabia que no Brasil isso quase não acontece? Geralmente é uma música bem ruim... Mas deixa eu te falar do que mais irei sentir falta. Eu gosto da minha sensei e das aulas de taiko. Agora é adeus sensei... Ela também não gostou de saber que vocês não querem que eu toque taiko com ela. Eu também gosto como muita gente se veste. Japanese fashion is great! E mesmo que eu não goste, existe autenticidade nisso. As vezes vocês exageram, mas isso é só minha opinião... Tem as bicicletas. As bicicletas! Nem dá para falar disso direito. Minha cidade precisa aprender tanto ainda. Muitas vezes quase fui atropelado e aqui todos pararam para mim. Vocês poderiam me mostrar como fazer isso, não? Mas agora talvez seja tarde... Ficarei com saudade de parar e sentar em algum banco na frente do jinja. Jogar uma moeda, balançar o gizo e pensar em meus ancestrais. Acho que você nem imagina que os seus Kamis parecem muito com os meus Orixás, nao é? Então, parecem mesmo. O sol, a lua, o mar, o vento, os elementos da natureza, tudo isso é compartilhado por um único arquétipo. Juro que é verdade! Não adianta fazer essa cara de desconfiado. África e Japão podem estar mais próximos do que imaginamos. Viu só como da para aceitar tantas coisas?
Mas agora eu tenho que ir. Sayonara Nihon.

2 comentários:

Juliana Pacheco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adelia disse...

Nossa, Alessandro...vc consegue exprimir com perfeiçao tanta coisa que eu sinto aqui! é impressionante, fiquei chocada. Força ai pra vc, moço!