sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Encontro com o Monte Fuji


Foram mais de 30 horas acordado. Acredito que poderia fazer tudo novamente para ver o sol daquele lugar: o topo do monte Fuji. Subi seus 3.776m e tenho certeza de ter visto uma das coisas mais lindas do mundo.
Foi mais ou menos assim. Um querido amigo (Tomita san!) falou que iria subir. Convidou a mim e a Keiko para irmos juntos e não nos sobrou muitas opções além de dizer que iriamos com ele. Sai de casa às 12:30 de um dia de verão escaldante. Fazia 36ºC e o calor era insuportável. Tomei o trem comum que durou uma hora e meia para a cidade de Toyohashi, onde iriamos encontrar o Tomita e depois pegamos o shinkansen (trem bala) que levou uma hora até Shin-Fuji, o local mais próximo do monte Fuji. Dalí tomamos um onibus que leva mais ou menos uma hora e meia até o estágio 5 do Fuji. Nós não subimos o Fuji desde o pé da montanha porque isso levaria seguramente uns 2 dias.
















O estágio 5 começa da altura de 2400m, quando já ultrapassa a floresta que cobre parte da montanha, mas que mesmo assim significa uma caminhada para os 1.224m restantes. O caminho é bem íngreme e cheio de areia e rochas vulcânicas.
Quando você sai do onibus e olha para a montanha, imagina que não vai ser tão dificil e nem faz idéia do impacto da altitude e do frio que vai ficar. Até fazemos piadas com isso, mesmo sabendo que não vai ser tão tranquilo assim. Prícipiante é ingênuo mesmo! Mas o plano é subir custe o que custar e ver o sol nascer de lá do topo. São 18:30, trocamos de roupas e estamos prontos para começar a subir. O plano é ir sem pressa e chegar no topo por volta das 3:30 da manhã do dia seguinte, levando de 9 à 10 horas. Sabemos que lá em cima a temperatura pode chegar nessa época a quase 0ºC e com o vento a sensação disso se agrava. O início é bem tranquilo e a gente chega a pensar que deve ser algum truque para não nos desanimar logo de cara...rs Porém rapidinho a coisa se mostra como vai ser. A noite cai e a temperatura também começa a baixar. Cada parada significa descanço de uns 5 minutos e uma peça de roupa a mais para esquentar. Reparamos que o descanso não é proporcional ao tempo percorrido. Você pode descançar 20 minutos, mas isso não significa que vai conseguir andar por mais 20 minutos. Na verdade você anda cada vez menos.




Subimos a passos lentos. Paramos e bebemos água e comemos alguma coisa. Estamos bem preparados com barrinhas de cereal e paçoquita! Em cada estágio ou descanço na trilha temos a oportunidade de olhar para baixo. Isso era um bálsamo! O Fuji é cercado de cidades e elas estavam todas muito iluminadas e cada vez mais pequenas e distantes. O céu estava abrindo e permitia ter a exata sensação do que significava subir essa montanha. Nós estavamos a muito tempo acima das nuvens. As estrelas apareciam infinitamente e a vontade de tocá-las era enorme. Estrelas cadentes eram como peixes no mar que tentavam escapar de seus olhos assim que você as notava. Eram muitas e contantes.
Já estamos caminhando a mais de 4 horas e nem sinal do fim da trilha. A cabeça começa doer, o corpo tenta acostumar com a sensção de esquenta-esfria por causa da caminhada e do vento. Quando anda faz um calor enorme e o corpo começa a suar, mas quando para ele esfria em poucos segundos e você já está quase batendo os dentes. Nessa hora o pensamento vai para muitos lugares. Você não apenas se pergunta porque esta fazendo isso, mas em muitas oportunidades não te resta nada além de sentir aquele momento. Você é o frio e a dor, a felicidade e a testemunha daquele lugar.


Uma sensação de isolamento fica nítida e por mais que você se dê conta que existem outras centenas de pessoas próximas a você, fazendo exatamente a mesma coisa, sua cabeça para. Não te resta muito além de tomar consciência desse tempo e espaço. As vezes suas pernas tremem, sua garganta seca e nessa mesma hora, quando imagina o mundo que ficou lá embaixo, você não escuta mais nada. Por pouco tempo fiquei triste. Não sabia se o aperto no peito era por conta da altitude ou da angústia que aflorava. Ah! Que vontade de chorar... Eu já não entendia o que estava contecendo, a única coisa que importava agora era dar mais alguns passos. Olho para o Tomita e a Keiko e tento imaginar o que eles estão sentindo. Eu então canto como se repentindo a lembrança de meu mestre de capoeira no início da roda dizendo: “oh! tira a cobra do caminho meu Jesus São Bento...” A caminhada prossegue. Agora não é apenas resistência, é paciência e calma. O Tomita conta que a primeira pessoa a subir o Fuji foi um monge peregrino e anônimo no início século XV. Dá pra imaginar uma coisa assim? Que tipo de pessoa era essa? Se nós que estavamos subindo a partir do meio da montanha, com roupas adequadas, alimento e água suficiente e a coisa já estava um pouco complicada, imagina essa criatura fazendo a mesma coisa a 4 séculos trás!
No estágio 8 paramos para dormir um pouco. Foi dificl encontrar um espaço para parar e se abrigar do frio, fugindo do barulho das outras pessoas, ou apenas onde esticar as pernas sem tantas rochas. Eu não consigo nem cochilar! Depois de 30 minutos de descanso seguimos em frente. Um pouco mais de uma hora, considerando algumas paradas, chegamos no estágio 9. Até o topo são um total de 10 estágios. No estágio 9, nos bancos para descançar, vejo uma coisa incrivel. Tem um garoto de no máximo 10 anos lá. Já passa da 1:00 da manha e o moleque não para de falar e pular no colo daquele que imagino ser seu pai. Ele está feliz. Esse garoto japonês me fez pensar na maneira que educamos nossas crianças hoje em dia. Muitos adultos que conheço certamente diriam ser impossivel uma subida dessas para uma criança. Eles mesmos pensam não ser capazes. Mas estava lá, quase no topo da montanha mais alta do Japão uma criança, olhando com toda curiosidade do mundo para aquilo tudo. Ela estava alí porque acreditava ser possivel e com certeza também ninguém disse para ela que não seria capaz de fazer. Estava junto de um adulto que nitidamente não achava nada fácil caminhar até lá, mas juntos eles sorriam um para o outro e não acredito que pensavam em desistir. Eu não os encontrei no topo, mas espero que eles tenham visto o sol nascer também... Depois na descida, encontrei mais um menino e uma menina subindo.
















Ainda alimentando a alma com aquela beleza de vista noturna, percebemos que estamos quase no alto. Passamos pelo primeiro portal. O cansaço já se transformou em alguma outra coisa e nem pensamos mais nele. Passamos pelo segundo portal e temos certeza que falta pouco para o cume. O terreno se torna cada vez mais irregular e não conseguimos mais ver tantas lanternas a nossa frente. E eis que surge um jinja, templo xintoista que parece dar as boas vindas para aqueles que chegam até o alto. São 2:30 da manhã. Chegamos duas horas adiantados. O vento é forte e parece cortar a pele. Minha roupa não esta dando conta da baixa temperatura. Fico tremendo e nos amontoamos na porta do templo com outras dezenas de pessoas. O Tomita parece estar sofrendo muito com o frio. Ainda faltam 2 horas e meia até o sol aparecer e começar a nos esquentar. O cansaço é grande e dessa vez acabo cochilando um pouco. Acordo e me dou conta que há um casal de brasileiros ao lado. Eles perguntam se é nossa primeira vez subindo também e o cara diz que nunca mais vai fazer isso outra vez. Dentro de mim eu morro de rir. Ele parece ser daqueles que tentam ter o máximo de conforto possível no dia dia e digo que vale a pena sim, mas não é facil, que o esforço também esta em saber apreciar aquilo tudo. Ele estava tão concentrado na dor do corpo em si, que nem reparou no oceano de coisas novas que estavam acontecendo ao seu redor e dentro dele. Ele me chama de louco depois que digo que gostaria de voltar. Desejo-lhe boa sorte e espero que tenha entendido alguma coisa quando o dia clareou.


Tentamos dormir um pouco e por volta das 4:00 as pessoas começam a ir para o outro lado da montanha, buscando por uma vista melhor antes do sol aparecer. Sentamos e esperamos. Algumas cidades podem ser vistas por entre as nuvens. Ao contrário de nós, elas ainda dormem. As estrelas vão perdendo sua luz e o céu começa a ficar cinza. No horizonte uma tonalidade diferente vai surgindo lentamente. Uma cor alaranjada que vai ficando roxa, vermelha. Uma mistura magnífica. O azul começa a se destacar. O sol vem vindo! Eu nem me dei conta quando ficaram nítidas, mas as nuvens estão quase tocando meus pés. Aparentam ser um amontoda de algodão e lã gigantes. Quase não se movem, estão paradas, cobrindo a terra e refletindo os primeiros raios de sol. Não sei dizer se isso acontece rápido ou lento, mas esta alí bem na minha frente, com grande serenidade. O sol vem vindo com toda sua segurança e força pronto para nos aquecer depois de horas de frio. Um momento que parece durar uma eternidade. Entendo que não conquistei esse lugar. Estamos juntos e não existe nenhuma sombra de dominação e poder. Acontece uma realização enorme, um encontro bonito, uma oportunidade rara. Ele me aceita.




































Reconfortado e com o coração bem mais leve, começamos a explorar a cratera do monte. É enorme! Quase não se vê o fundo. Suas paredes estão cobertas de uma grande camada de gelo. Caminhamos em volta e agora buscamos um lugar para comer. Pensamos em ir ver o templo por dentro, mas está tão cheio de pessoas que acabamos desistindo... Por fim encontramos outro local, muito mais singelo e que não desperta a atenção das outras pessoas. Um casinha que protege imagens de alguns seres budistas. Imagens de demônios guardiões das portas do inferno budista. Mas por favor, não pense nesse inferno e nesses demônios pela perspectiva cristã. Apesar de usar os mesmo termos o papo é bem diferente... Eu me aproximo e fico feliz de presenciar mais isso. Comemos uma lata de milho, uma de seleta de legumes, algum cereal e estamos prontos para descer. A estimativa é de 3 horas morro abaixo. E vamos embora...






























Reza a lenda que para baixo todo santo ajuda e foi com esse espírito que iniciamos a descida. Pernas cansadas, corpo coberto de poeira, mochila mais leve, passando pelo primeiro portal. O esforço agora é diferente. Antes era o impulso para cima e agora é a contenção para não rolar o barranco. A descida parece não ter fim! Estamos a quase duas horas andando e o final nem aparece para dar um ânimo...rs Encontramos muitas pessoas subindo agora, inclusive dois caras carregando bikes. Tem uns japas malucos que descem de bicicleta! Eu não vi, mas estavam eles lá com suas bikes e pareciam bem animados. Aceno em positivo e fico sonhando em um dia quem sabe estar ali com a minha magrela. O sol começa a queimar e a temperatura agora deve estar em torno de 37ºC. Surpreso com isso? Existem regiões no Japão que chegam a 41ºC! Onde eu moro ontem fez 39ºC.




























































Chegamos no estágio 7 e 1/2, depois 7, o 6 e por fim o 5. Ufa! Caimos exaustos. Descansamos uns 45 minutos e pausa para o banheiro. Mas nem pensar em parar totalmente. Ainda temos uma hora e meia de onibus, mais umas 2 e meia pelo menos de trem e mais alguns minutos de bicicleta até em casa. Só penso no banho e no ar condicionado!
Pronto. São quase 16:00 do dia seguinte. Estou limpo, alimentado e deitado na sala com o ar na temperatura mais baixa possivel. Agora você me pergunta se eu iria novamente? Se valeu a pena? Com certeza! Talvez tentaria uma outra trilha, só para variar. Mas não na semana que vem. Himalaia, me aguarde.

5 comentários:

Mari disse...

O que comentar dessa experiência sua??!!

Eu havía pedido a vc, uma foto do Monte Fuji quando fosse vê-lo.

Isso é um bálsamo! Vc subiu esse ser majestoso e pude sentir um pouquinho, com suas palavras e essas imagens, algo como "religare"!

E viva a vida!!

Mari.

sickkkkitanai disse...

Rolê doido mano!!!!

:: disse...

que loucuuuraaa!! delíiiciaaaaa.......... rs*
imagina... monte fugi, cara!
.
.
.
coisa boa encontrar vc blogando, vivíssimo da silva, apesar de tããoo longe!
muitos beijos e um abraço bem bom, da
:: tabita

[apareça no xicra:
www.xicradecafe.blogspot.com]
=)

toni-jr disse...

SO TENHO A DIZER "PARABENS"....Q LOUCURA MARAVILHOSA!! Q BOM VC TER ESSE BLOG...ASSIM POSSO TE ACOMPANHAR NESSAS AVENTURAS....ABRAÇO JUNIOR

Malraux disse...

o bom é tentar se imaginar lá, tentar sentir o q está lá...
tuas palavras ajudam, mas as imagens, cheguei quase a sentir o vento gelado em emu rosto.

abraço.

Antonio.

Monte Fuji, hehe. isso é bom!