quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Quando a Crise Aérea é o Grande Problema Do Brasil

Este artigo trata, rapidamente, das polêmicas em torno da crise aérea. Seu principal objetivo é questionar a visão das classes média e alta sobre o governo Lula, entendendo quem gosta e quem não gosta dele e de seu governo. O texto tenta passar um pouco pelos grandes problemas sociais que assolam o país e pensar por que, neste contexto, há gente que acredita que a crise aérea é o grande problema do Brasil de 2007.
Desde o acidente com o avião da Gol, ocorrido em setembro de 2006, e o agravamento do chamado “apagão aéreo” pelo acidente com o boeing da TAM, que matou quase 200 pessoas em 17 de julho de 2007, consolidou-se o discurso monotemático da imprensa e das classes mais abastadas em torno do assunto. Mostram revolta: poucos apontam as empresas como co-responsáveis e a maioria enxerga no acidente uma ótima maneira de criticar o governo de Lula, não sem razão; outros, empolgados com o momento, pedem até o impeachment de Lula.
Algumas questões não querem calar. Por que motivo, tanto a imprensa, quanto a classe média acham que a crise aérea está entre os maiores problemas do país? Por que, da mesma forma, uma e outra, acham que isso seria suficiente para derrubar o governo de Lula? E a classe alta, pensa da mesma forma? Afinal, qual é a real avaliação que o brasileiro faz do governo Lula? Estaria, de fato, o apagão aéreo, entre os principais problemas do Brasil, como quer fazer crer a imprensa?

LULA E A CLASSE MÉDIA BRASILEIRA, OU, QUEM GOSTA DO LULA?
A reivindicação do impeachment de Lula por setores das classes média e alta e movimentos como o Cansei mostram um retrato do fenômeno que tentaremos demonstrar, e que podemos resumir da seguinte forma: a classe média e grande parte da classe alta são incapazes de observar além daquilo que está ao seu redor. Para elas, é raríssimo tecer qualquer observação pertinente, de qualquer coisa, que vá para além de seus próprios círculos de convivência.
Um olhar um pouco mais atento ao sentimento “geral” do país, extrapolando o universo das classes média, alta e com imensas influências da classe baixa, anunciará que a popularidade de Lula, não só não baixou, como aumentou, se comparada a alguns períodos do ano passado.
Para uma rápida análise, observemos duas recentes pesquisas. Em uma primeira, encomendada pela revista Carta Capital e Band News para o Vox Populi, publicada na própria revista[1], ao responderem se, de maneira geral, aprovam ou desaprovam a atuação do governo Lula, 60% do público dizem aprovar e 34% reprovar. O índice de aprovação é o maior desde maio de 2006, com exceção do mês de outubro, quando Lula elegeu-se com 63% de aprovação. Em outro quadro, que faz uma avaliação dos primeiros seis meses de mandato, o governo de Lula foi avaliado como positivo por 47% dos entrevistados, índice maior do que os dois mandatos de Fernando Henrique, Itamar e Collor. Outra pesquisa publicada no domingo, dia 05 de agosto de 2007, pela Folha de São Paulo, mostra dados semelhantes. A pesquisa, realizada pelo Datafolha, mostra que 48% dos entrevistados avaliam o governo de Lula como ótimo ou bom, enquanto somente 15% avaliam como ruim ou péssimo.
Mas se Lula tem sido tão criticado nos círculos das classes média e alta, quem é que avalia de maneira positiva seu governo? Com uma observação mais detalhada nas pesquisas, pode-se notadamente perceber que quanto mais pobres e menos instruídos os entrevistados, melhor avaliam o presidente. Dos entrevistados na pesquisa Vox Populi que recebem até um salário mínimo, 69% aprovam o governo de Lula. Entre os que recebem mais de 10 salários mínimos, a aprovação diminui para 42%. Os dados são semelhantes quando se observa o grau de instrução dos entrevistados. Dos que estudaram até a 4ª série do ensino fundamental, 69% aprovam o governo de Lula, ao passo que daqueles com curso superior, somente 46% o aprovam.
Isso poderia conduzir a conclusões simplistas. Os mais pobres do país, muitos assistidos pelos programas sociais do governo, aprovam amplamente o governo de Lula. Os mais ricos, não beneficiados pelos programas sociais e que sentem, pela estabilidade da economia e aumento do crédito, uma entrada dos menos favorecidos na classe média, reprovam. Os menos instruídos, que “votam pela identidade de classe e pelo assistencialismo do governo”, aprovam. Os mais instruídos, ou os que têm mais contato com a imprensa, que são mais informados, reprovam.
E, de fato, o acesso à imprensa faz com que aumentem as críticas sobre o governo. Se uma parcela da imprensa simplesmente reproduz um discurso ideológico, em defesa da classe dominante, o fato é que há críticas muito bem embasadas sobre o desempenho de Lula e de seu governo. Como mostrou recente relatório do Banco Mundial[2], este governo é o mais corrupto dos últimos tempos e o que mais vem utilizando o Estado para fins partidários – o vulgo “aparelhamento” do governo –, talvez um pouco do que ainda restou da origem leninista de alguns membros do PT.
No entanto, para uma análise da situação como um todo, e não para uma observação restrita somente daquilo que é evidente e que está ao nosso lado, não podemos terminar a análise aí. Resta uma dúvida que não é esclarecida pelas duas pesquisas citadas. E os ricos de verdade? E a verdadeira classe dominante?
Ao observar a “faixa dos mais ricos” entrevistados na pesquisa Vox Populi, não conseguimos responder esta pergunta, visto que ela só nos mostra uma faixa única daqueles que recebem “mais de 10 salários mínimos”, ou seja, a partir de R$ 3800,00 mensais. A dúvida permanece.
Observando com um pouco de cuidado o contexto do Brasil, não seria um absurdo dizer que a classe A, ou seja, a classe alta de verdade, a elite do país, apesar dos desgostos pelas origens do petista, beneficia-se muito da situação econômica estabilizada por seu governo. São inúmeros os grandes proprietários, investidores e banqueiros que tecem elogios a Lula. Claros exemplos disso são os lucros anunciados recentemente pelos bancos privados do Brasil. Um artigo da Gazeta Mercantil[3], informa que o Bradesco afirma ter tido um lucro líquido de mais de 4 bilhões de reais, somente no primeiro semestre de 2007; um aumento de quase 30% em comparação aos lucros do mesmo período do ano passado. Este era o maior lucro entre bancos privados de capital aberto dos últimos 20 anos[4], até o anúncio dos lucros do Itaú no semestre: 4,02 bilhões.[5] O que será que os donos desses bancos acham do governo do Lula?
A política econômica do governo Lula deu espaço para que bancos faturassem como nunca, a estabilidade atraiu investimentos estrangeiros. Outro exemplo, são os empresários usineiros que, pelo incentivo de Lula ao álcool, estão sorrindo de orelha a orelha. José Pessoa de Queiroz Bisneto, empresário do ramo, proprietário de oito usinas e 11 mil empregados, afirma, em entrevista para a revista Audi Magazine[6]: “recentemente, quando apoiei Lula para presidente, no primeiro mandato dele, achava engraçado: tinha um monte de gente que morria de medo do Lula. Hoje o setor dá graças a Deus. Lula está em lua-de-mel com o setor, o etanol... O mundo veio a falar de etanol depois do Lula”. Poderíamos citar muitos outros exemplos.
Também não seria um absurdo entender o fenômeno da classe média que odeia o Lula. Por uma série de motivos, o fato é que o cidadão da classe média olha muito mais para cima do que para baixo; é muito comum uma pessoa que recebe seus R$ 3000,00 por mês, achar que está mais próximo do Bill Gates, do que do trabalhador que recebe um salário mínimo por mês. Reclama que não tem o que o rico tem, no entanto não observa o que tem a mais que o pobre. Isso porque a classe média não se move tanto pela racionalidade econômica, como a dos banqueiros e empresários; ela assume e absorve a ideologia da classe dominante e para se sentir mais próxima dos ricos, afasta-se dos pobres, e a melhor forma que encontra para fazer isso é justamente expressando uma visão de mundo de classe dominante. A classe média tem medo do Lula por acreditar que “ele é de esquerda”, algo que qualquer um, um pouco mais instruído, sabe que não é faz tempo; podemos confirmar isso com todo o setor privado que confirmará que de “comunista”, Lula não tem nem o cheiro. A classe média está ameaçada; acredita que está perdendo os poucos privilégios que lhe restam e que lhe fazem sentir tão superior aos pobres. É assim que endossam a visão de Veja e outros veículos que exprimem uma ideologia da classe dominante para a classe média. Isso com relação a todos os assuntos. Recordemos do bom e velho Chomsky que dizia que se você quer ser informado de verdade, deve ler um jornal de rico (de investidores, fundamentalmente) – ele cita o exemplo do Financial Times – pois, falava ele, a mídia feita para classe média tem óbvias intenções de ludibriar os leitores, expondo-os aos valores que essa imprensa gostaria que eles acreditassem. Extrapolando essa visão para o Brasil, Chomsky recomendaria a leitura da Gazeta Mercantil, ao invés de Veja, Folha ou Estado de São Paulo.

CRISE AÉREA E PROBLEMAS SOCIAIS DO BRASIL
O fato de as classes média e alta estarem focadas simplesmente nos seus próprios problemas faz com que acreditem realmente que o grande problema do Brasil de hoje é a crise aérea. Recordemos que somente 8% da população têm costume de voar de avião e não é estranho o fato de que aqueles que produzem as notícias da imprensa estejam dentro desses 8%. No entanto, será que esse realmente é o grande problema do Brasil? Observemos rapidamente alguns outros problemas do país.
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Um comentário:

Juliana Pacheco disse...
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