sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um coração em paz

Durante muito tempo de minha vida fui apaixonado por um encontro. Quando pequeno tive uma amiga que me ensinou a respeito das muitas formas de amar. A Karina e eu tinhamos na época uns 10 ou 11 anos e eramos de fato muito amigos. Ela era uma mestiça filha de mãe branca e pai nissei. Depois em minha adolescencia encontrei outros amigos maravilhosos também mestiços e nikeis. Era tão apaixonado por isso que minhas três primeiras namoradas sérias (rs) na vida eram nikeis. Um verdadeiro nipomaniaco como alguns amigos brincavam. E era apaixonado não apenas por uma estética ou pelo encanto dos olhos lindos dessas japonesas. Era maluco pela história dessa gente, por sua memória, por seu silêncio, por sua maneira tão particular de dizer as coisas sem pronunciar tantas palavras. Era encantado pelo ensinamento zen, pelos kimonos coloridos, pelo gosto doban-cha, pelo divertimento do bon-odori, pelo sabor do karinto, pela batida do taikô, o som do shamisen, pelas histórias do mestre Kurosawa e de Yamada, a literatura de Mishima e o erotismo de Tanizaki. Sempre me emocionou as histórias da imigração que escutava das obas de meus amigos e era tanto encantamento que cheguei ao ponto de conhecer mais dessas histórias que meus próprios amigos. Ia até a casa deles apenas para conversas com seus pais e avós e não era raro o espanto deles ao me escutarem falar de algum fato que mesmo para um nikei era dificil saber. Porém hoje eu entendo porque era tão fascinado por isso tudo. Percebia alí um profundo pertencimento e isso era o que mais procurava na vida. Como filho de funcionario público, passei a maior parte de minha vida mudando de cidade e tendo que deixar tudo para tras e recomeçar uma nova vida a cada 3 ou 4 anos. Boa parte dos nikeis por mais tempo que estivessem aqui sempre faziam referencia a alguma diferença nos modo de pertencer a cultura brasileira. Claro que com o tempo isso vai se dissolvendo, amaciando e nenhuma idéia pode resistir as influências do tempo. O fato é que alí entre estes eu me sentia bem e quase em casa. Aprendi que o tempo é uma benção e não me aborrecia ter que esperar pela hora de estar mais fundo ainda nesses valores. Entretanto como meu coração sempre foi um nômade por definição, precisei ir viver outras coisas e outros encontros, tanto para o bem como para o mal, se é que podemos dizer isso. Até que um dia por conta das tecnologias virtuais, um desses amores foi reencontrado e um sonho tomou conta de mim. Havia muitos anos que pretendia conhecer o Japão, mas em todas as vezes que fui tentar chegar até lá não obtive exito. Pura frustração. Esse encontro oferecia mais do que a possibilidade de pisar em terreno distante, ele trazia a esperança de entregar meu coração. Sabia de alguma forma que essa era a mulher para toda minha vida! Uma convicção que me lançou para o outro lado do mundo sem duvidar. No fim das contas a gente chegou a casar. Porém, muitas outras coisas foram ficando dificeis e quase impossíveis. Lá na terra distante foi despertando em mim sentimentos nada nobres e de enorme fúria. Me entristecia como era a relação do povo local com os imigrantes. Ficou realmente muito amargo presenciar e sentir toda xenofobia, racismo e principalmente a exploração no trabalho, até o momento que nada mais me interessava. Estava desistindo de lutar aquela batalha. E junto a isso, já não tinha mais certeza se amava aquela mulher. E tudo que havia sido encanto transformousse em decepção e lamento. Precisava ir embora de lá e foi o que fiz. Sozinho, tentando não olhar para tras, retornei a minha gente. Foi nessa hora que muito do trabalho que vinha tendo nos últimos anos sobre o pertencimento estava em novo lugar. Essa relação com os nikeis durou pelo menos 20 anos. E sobre as questões do enraizamento havia finalmente encontrado o meu. Ainda assim permaneceu um enorme ressentimento dessa relação, ficou um rancor com o que tinha vivido naqueles últimos anos. Eu simplesmente não podeia assistir mais a nenhum filme ou ler os autores que um dia fui apaixonado sem ressentir, sem entristecer. Era como se aquele amor por aquela mulher ao terminar, todo esse universo igualmente passará a ser estranho. Entendi que nenhum pertencimento pode depender de outra pessoa. Construimos isso sozinhos e em alguns encontros, mas a maior parte do tempo, estamos em absoluta solitude. Nunca receberemos um lugar e ninguém pode dar uma existencia a outro. Fazemos isso a sós e quando abrimos nossa alma surgem aqueles que nos auxiliam. Passei muitos meses ignorando o fato de que esss coisas fazem parte de minha história. Ressentir desencontros e momentos da vida que nos fizeram chorar é alimentar um pouco do esquecimento de nossa própria vida. É como abandonar um pedaço importe de si mesmo e achar que tudo bem. A pouco tempo atrás voltei a conversar com essa tradição. Todo o encanto que um dia tive com esses mestres retornou. Minha gratidão as mulheres e homens que compartilharam tantas coisas valiosas comigo voltou a estar ao meu lado. Estou contando essa história porque nas últimas semanas o que mais tenho feito é me reconciliar com meus sonhos e minha vida. Por mais que achamos ter sido traidos, feridos ou abandonados, por pior que tenhamos agido e também ferido, o que realmente importa é o que preservamos em nossa alma. Estou preferindo manter a gratidão no lugar da mágoa. Quero ter a lembrança das horas que rimos mais do que o olhar de censura. Manter o carinho dessa mulher muito mais do que as porradas do guarda da migra. Levar a benção da idosa no lugar das ofensas do racista. Quero e não vou mais perder, entender que tudo tem seu lugar e sua duração. Hoje estou profundamente comprometido com a tradição do meu povo e de meus outros mestres. Não preciso mais justificar sua existência. Esse texto é somente um modo de agradecer o que foi, de deixar partir, e uma esperança com o que esta por vir. Como é bom dar adeus aos nossos demônios. E como é melhor ainda não temer, mas reverenciar nossas memórias. Sem esperança e um amor eu não sei viver.

2 comentários:

Fabiana S. Pellicciari disse...

Eu sempre acho que a gente é bem maior do que aparentamos em nossos traços físicos. O interesse por um povo, por culturas, é algo que nos atravessa, e vamos nos apropriando dessa nossa captura com o tempo.
Quem nos julga a partir de aparências está limitando não somente o olhar como a possibilidade de encontros. Deixar ser impactado por algo ou alguém não é muito fácil muitas vezes, mas é o que nos faz sentir vivos. Sentir a energia, inclusive da solidão, é se autorizar a viver. Ter momentos de braveza, de indignação, de introspecção, é necessário para absorver o que há de maior acontecendo conosco. Não pensamos só com a cabeça, mas tb "pensamos" com nossos corpos em ato, fazendo, andando, etc.
Penso tb nisso de ser nômade, e não sei se vou parar de ser assim rsrs. Nos intervalos das andanças escrevemos, falamos com pessoas aparentemente sem a menor importância, interagimos com os astros, com coisas inanimadas, ou seja, acho q perpetuamos para além de nossa compreensão um bom pedaço de nossa vida e de nossas paixões com o que nos cerca. Deixamos rastros e marcas.
E assim são sempre os encontros, bons ou nem tanto, são a possibilidade de desprendimento de um pedaço nosso, e por isso uma certa morte sempre ocorre. Quem não quer perder nunca, não sai do lugar literalmente.
Alê, um beijo enorme pra vc, adorei o que escreveu e que vc possa sempre ter esse espírito que não pára, para poder deixar seus rastros por aí. Quando parar pra descansar sempre terá um anjo ao seu lado, mesmo que vc não o veja. Eu acredito que vc tenha um anjo. Um bom capeta tb pra dar gosto à vida, mas vc tem uma grande proteção.

untitled disse...

Nossa, Ale, ipsis litteris esta é a minha história com a Alemanha... bem, ainda não perdi a vontade de dar um beijo na boca do Nietzsche na próxima encarnação ;)