quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O MURO

eu bato contra o muro
duro
esfolo minhas mãos no muro
tento longe o salto e pulo
dou nas paredes do muro
duro
não desisto de forçá-lo
hei de encontrar um furo
por onde ultrapassá-lo

Oliveira Silveira

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fragmentos de uma tarde de quarta-feira


"-... que tributos são para os príncipes e as flores para os homens.

- Mas eu não sou nada disso.

-E o que você é Lawrence?

- Eu não sei."
Lawrence da Arábia

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Adeus Tia Doca! Que a terra lhe seja leve!




A sambista faleceu vítima de infarto na tarde deste domingo, aos 76 anos, no Hospital dos Servidores do Estado (Iaserj), no Centro. Tia Doca sofreu um derrame no último dia 17 e foi internada no hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, sendo transferida no dia 18 para o Iaserj.
Na última quarta-feira recebeu alta da CTI e seu quadro de saúde estava estável.
'Tia Doca era a essência do pagode em pessoa', diz Dudu Nobre representante da nova geração do samba, Dudu Nobre lamentou profundamente a morte de Tia Doca e disse que está se sentindo como se 'tivesse perdido um ente querido'. Freqüentador do pagode da baluarte da Portela desde os cinco anos, Dudu lembrou com saudade dos momentos vividos ao lado de Tia Doca.
'Sempre tive um respeito muito grande por ela, afinal ela me conhecia desde criança quando eu ia ao pagode dela levado por minha mãe. Ela fazia questão de me oferecer comida e perguntar se estava tudo bem. Ligava também quando eu estava doente e vivia se preocupando com tudo mundo. Perdi uma amiga querida', lamentou.
Dudu Nobre revelou ainda que tinha como hábito, sempre antes de lançar um disco, levar o CD para Tia Doca escutar e dar o seu aval. 'Ela era a essência do pagode em pessoa. Sua importância é enorme, porque foi uma das poucas a preservar a verdadeira tradição do samba dentro de um terreiro. Cantei lá há um mês mais ou menos e era um dos meus programas prediletos'.
Diante da ausência da sambista, Dudu afirmou que o mais importância é que o famoso Pagode da Tia Doca continue. 'Já falei com o filho dela (Nem) sobre isso. O pagode vai ficar parado duas semanas, mas depois volta. Não pode acabar nunca', completou.Leci Brandão: 'A Portela perdeu um de seus grande amores'
'A Portela perdeu uma de suas matriarcas'. Assim a mangueirense Leci Brandão reagiu ao saber da morte de Tia Doca da Portela. Cumprindo uma temporada de shows em São Paulo, a cantora lamentou o falecimento da sambista e exaltou o legado deixado por ela.
'Sempre tive uma ótima relação com Tia Doca. Não freqüentava o seu pagode, mas sempre nos respeitamos muito e tínhamos carinho uma pela outra. Ela era muito importante para o samba e por isso fiz uma pequena homenagem a ela citando seu nome na música 'Isso é Fundo de Quintal'', contou.
Segundo Leci, a pastora da Portela será sempre lembrada como uma das matriarcas do samba. 'Ela era uma celebridade de verdade, simples e humilde. a Portela perdeu um de seus grandes amores', completou Leci fazendo referência ao enredo de 2009 da Portela que fala sobre o amor.Pastora, compositora e até porta-bandeira
Tia Doca ficou famosa por ser dona de uma das mais famosas rodas de samba da cidade. Há quase 30 anos, a sambista abria o quintal de sua casa para promover o famoso Pagode da Tia Doca, que serviu de berço para diversos artistas, entre eles Zeca Pagodinho. Em 2008, ela foi um dos destaques do filme "O mistério do samba", produzido pela cantora Marisa Monte.
Sua família era da Serrinha. Tia Doca era prima de Dona Ivone Lara. Já a mãe, dona Albertinha, foi a primeira porta-bandeira da Prazer da Serrinha e só parou de desfilar quando a escola acabou em 1947. Seguindo os passos da mãe, Doca já era, aos 14 anos, porta-bandeira da Unidos da Congonha, em Vaz Lobo. Seu mestre-sala era Benício, que mais tarde formaria par com Wilma Nascimento, na Portela.
Além de pastora, Tia Doca foi destaque da Portela e presidente de ala por três anos. Entrou para a Velha Guarda por sugestão de Alberto Lonato e teve como examinadores Alvaiade e Armando Santos; e veio a substituir a lendária Tia Vicentina.
Tia Doca era muito ligada a Clara Nunes, que promoveu diversas rodas de samba no quintal da sambista. Como compositora, Doca é autora do partido-alto "Temporal", por ela gravado num disco ao lado de Monarcoo, e do samba "Orgulho Negro", em parceria com o filho Jadilson Costa", gravado por Jovelina Pérola Negra.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O saber quando não humaniza deprava.
Refina o crime e torna mais degradante a covardia.
Mikhail Bakunin

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Janelas abertas

Certa noite voltei ao meu eremitério após caminhar nas montanhas, e percebi que todas as portas e janelas da cabana estavam completamente abertas. Ao deixar a casa, eu não as havia fixado, e um vento frio soprou através da habitação, abrindo as janelas e espalhando por toda a sala os papéis que estavam sobre minha mesa. Imediatamente fechei as portas e janelas, acendi uma lâmpada, recolhi os papéis e arrumei-os ordenadamente sobre minha mesa. Acendi então o fogo da lareira, e logo a lenha crepitante voltou a aquecer a sala.

Algumas vezes nos sentimos cansados, com frio e solitários no meio da multidão. Podemos desejar nos retirar para sermos nós mesmos e nos aquecermos novamente, como fiz no eremitério, sentando-me perto do fogo, protegido do vento frio e úmido. Nossos sentidos são janelas para o mundo exterior, e algumas vezes o vento sopra e nos perturba interiormente. Muitos de nós deixamos a janela aberta o tempo todo, permitindo que as visões e os sons do mundo nos invadam, nos penetrem e exponham nosso eu triste e perturbado. Ficamos com muito frio e nos sentimos solitários e temerosos. Você já deu consigo assistindo a um programa horrível na televisão e incapaz de desligá-la? Os sons estridentes e o estampido de armas de fogo são desagradáveis. No entanto, você não se levanta para desligar a televisão. Por que você se tortura dessa maneira? Você não quer fechar suas janelas? Está com medo de ficar sozinho – do vazio e da solidão que poderá encontrar quando se vir a sós?

Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995

retirado de para ser zen

domingo, 18 de janeiro de 2009

Um projeto que se anuncia

Em diferentes momentos nos últimos dois anos escrevi sobre lugares e pessoas que encontrei. Esse espaço foi chamado de superação de fronteiras. Estive viajando e essa jornada me levou a exatos oito países e em alguns deles mais de uma vez. Estou falando a respeito por tomar uma decisão diante disso tudo. Voltei ao Brasil no mês de setembro e é impressionante como me parece tão menos. Às vezes sinto que foram apenas semanas e raramente me dou conta de como já estou entrando no quarto mês de meu retorno. Talvez tenha a ver com o fato de ainda contar muitas histórias daquilo que passei. Re-contar, re-lembrar, re-viver. Não sei... Os encontros com amigos não terminaram e sempre retomo lembranças do que passei nesses meses. Eis que num espaço bastante peculiar vou me dando conta da importância de algumas coisas. Pensar em voltar – devo confessar – sempre me foi um assunto caro. Durante muito tempo da minha vida, se não pelos meus 31 anos, a partida se fez presente. Não sei até onde isso é importante, mas acabei desenvolvendo uma curiosa capacidade de ir embora dos lugares. Isso é um pouco diferente na relação com as pessoas, mas quanto aos locais creio que o destemor é aquilo que mais se faz presente. Dei-me conta que não há um lugar nesse mundo que não possa ir, que me apavore ou que me pareça impossível de chegar. O que me custa realmente é o retorno. Quando escuto alguém falando que adoraria ir para lugares novos ou distantes, sempre me surpreendo com a sensação disso ser tão simples na minha vida, enquanto na delas aparenta ser o contrário. Uma querida amiga me falou certa vez sobre isso e como para ela voltar é muito tranqüilo, particularmente porque muitas vezes sua estadia nesses lugares outros não foi “lá essas coisas” e o retorno é sempre muito desejado. Concordo com ela, principalmente por entender o que ela definiu naquele momento como difícil, porém existe uma condição em mim que nunca me trouxe esse tipo de calma. Não sei explicar o que seria exatamente, mas talvez seja a condição nômade de algumas pessoas. Quem sabe um devir estrangeiro que não pode parar. Um estado de busca e inquietação que não silencia. Algumas pessoas carregam isso por longo tempo, e pude particularmente nesse momento, encontrar algumas delas nesse mesmo caminho. Existiram situações que celebramos esses encontros por saber que há mais semelhanças nessa vida do que imaginamos. Como assim? Penso que parte da dificuldade de muitas pessoas partirem é por se darem conta de algum modo, que estarão muito tempo sozinhas. A solitude é quase uma condição para quem se lança nessa imensidão. Não há nada de mal nisso, fique claro que são escolhas, e as vezes, apenas a simples aceitação dessa condição. Não se trata de abandono, desprezo, ausência ou mesmo algum tipo de tristeza. O fato de estar sozinho por longas jornadas pode produzir muitas outras coisas que com o tempo são difíceis de lidar. Ainda assim raramente produz arrependimento na tomada dessa decisão. Estou convencido que as pessoas em sua grande maioria precisam de um tempo a sós. Deveriam experimentar o silêncio, o vazio que cala na alma, evitar tantas distrações para escapar do abandono e incompreensão que dizem sentir tanto. O alívio de alguns desses elementos não reside na negação, mas em seu oposto. Que fique isso para depois. O que gostaria de compartilhar aqui é que decidi escrever sobre esse tempo distante. Não tenho a pretensão de vir a ser um escritor, até porque me falta um tanto de competência para tal, entretanto me dou o direito do uso da palavra para contar sobre partir, sobre a alegria simples do inédito e sobre poder e saber voltar. Escrever sobre se deslocar em culturas distintas, sobre encontros que potencializam e da urgência de se abandonar aqueles que nos fragilizam. Falar dos dias no deserto, das águas que precisam ser atravessadas, da montanha mais linda que vi. Dizer sobre amizade, relacionamento e liberdade. Expressar a superação do ressentimento, da dor de dormir na rua quando não é isso que se quer, de chorar na calçada por não encontrar o caminho de casa. Lembrar dos telefonemas e mensagens que consolam e alimentam. Não esquecer a gratidão e o perdão. Falar da vida e da vontade de amar. E falar de poder, e mais ainda, de saber voltar. Pensar a hora em que nos damos conta que nunca é tarde para voltar e pegar o que ficou para trás. Espero ser capaz de concluir isso, afinal não sei bem quanto tempo vai levar. Para mim, a esperança de entender um pouquinho mais daquilo que é. Foi tempo demais caminhando para saber o que não sou. Dizem que escrever e contar uma história é assim mesmo – e é até bom que seja - a gente nunca tem certeza onde vai dar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009