sábado, 11 de julho de 2009

terça-feira, 7 de julho de 2009

Resposta do Prof. Kabengele Munanga

*Manifestação do professor Kabengele Munanga acerca da matéria “Monstros tristonhos” publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 14 maio de 2009, de autoria de Demétrio Magnoli* "Em matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 14 maio de 2009 (http://arquivoetc . blogspot. com/2009/ 05/demetrio- magnoli-monstros -tristonhos. html), intitulada “Monstros tristonhos”, o geógrafo Demétrio Magnoli critica e acusa agressivamente as Universidades Federais de Santa Maria (UFSM) e de São Carlos (UFSCAR) e também a mim, Kabengele Munanga, Professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. As duas universidades são criticadas e acusadas por terem, segundo o geógrafo, criado ”tribunais raciais” que rejeitam as matrículas de jovens mestiços que optam pelas cotas raciais. No caso da Universidade Federal de Santa Maria, trata-se apenas de Tatiana de Oliveira, cuja matrícula foi cancelada menos de um mês após o início do curso de Pedagogia.. No caso da Universidade Federal de São Carlos, trata-se do estudante Juan Felipe Gomes. O acusador acrescenta que um quarto dos candidatos aprovados na UFSCAR pelo sistema de cotas raciais neste ano de 2009 teve sua matrícula cancelada pelo “tribunal racial” dessa universidade. A questão que se põe é saber se além desses estudantes, cujas matrículas foram canceladas, outros alunos mestiços ingressaram em cerca de 70 universidades públicas que aderiram à política de cotas. Se a resposta for afirmativa, os que tiveram sua matrícula cancelada constituem casos raros ou excepcionais que mereceriam a atenção não apenas de Demétrio Magnoli, mas também de todas as pessoas que defendem a justiça e a igualdade de tratamento. Mas por que esses casos raros, que constituem uma exceção e não a regra, foram “injustiçados” pelas comissões de controle formadas nessas universidades para evitar fraudes, comissões que o sociólogo Demétrio rotula de “tribunais raciais”? Por que só eles? Por que não ocorreu o mesmo com os outros mestiços aprovados? Houve realmente injustiça racial ou erro humano na avaliação da identidade física dessas pessoas que foram simplesmente consideradas brancas e não mestiças apesar de sua autodeclaração? Os erros humanos, quando são detectados, devem ser corrigidos pelos próprios humanos, como o foi no caso dos estudantes gêmeos da UnB. As injustiças, flagrantes ou não, devem ser apuradas e julgadas pela própria justiça que, num estado democrático de direito como o Brasil, deverá prevalecer. Acho que os estudantes Tatiana de Oliveira e Juan Felipe Gomes, e tantos outros que o sociólogo menciona sem entretanto nomeá-los, devem procurar um advogado para defender seus direitos se estes tiverem sido efetivamente violados pelos chamados “tribunais raciais”. Entendo que o geógrafo Demétrio tenha pena deles, considerando a sua sensibilidade humana. Se realmente houve erro humano na verificação da identidade desses estudantes, a explicação não está na citação intencionalmente deturpada de algumas linhas extraídas de um texto introdutório de três páginas ao livro de Eneida de Almeida dos Reis, intitulado* MULATO: negro-não-negro e/ou branco-não-branco,* publicado pela Editora Altara, na Coleção Identidades, São Paulo, em 2002. Veja como é interessante a estratégia de ataque do geógrafo Demétrio Magnoli. Ele escondeu de seus leitores o título do livro de Eneida de Almeida dos Reis, assim como a casa editora e a data de sua publicação para evitar que possíveis interessados pudessem ter acesso à obra para averiguar direta e pessoalmente o fundamento das acusações. De fato, ele não disse absolutamente nada sobre o conteúdo desse livro, e passa a impressão de ter lido apenas vinte linhas do total de três páginas da introdução, a partir das quais constrói seu ensaio e sua acusação. Com sua inteligência genuína, acho que ele poderia ter feito uma pequena síntese desse livro para seus leitores; se ele o tivesse mesmo lido, entenderia que nada inventei sobre a ambivalência genética do mestiço que não estivesse presente no próprio título da obra “Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco”. Desde quando a palavra ambivalência é sinônimo de “monstro tristonho”? Estamos assistindo à invenção, pelo geógrafo, de novos verbetes dos dicionários da língua portuguesa? O livro de Eneida de Almeida dos Reis resultou de uma pesquisa para dissertação de mestrado defendida na PUC de São Paulo sob a orientação de Antonio da Costa Ciampa, Professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da PUC São Paulo. Ele foi convidado a fazer a apresentação do livro, na qualidade de professor orientador, e eu para escrever a introdução, na qualidade de ex-professor na disciplina “Teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. O livro se debruça sobre as peripécias e dificuldades vividas pelos indivíduos mestiços de brancos e negros, pejorativamente chamados mulatos, no processo de construção de sua identidade coletiva e individual, a partir de um estudo de caso clínico. É uma pena que nosso crítico acusador não tenha tido a coragem de apresentar a seus leitores o verdadeiro conteúdo desse livro, resultado de uma meticulosa pesquisa acadêmica, e não da minha fabulação. Para entender porque essas pessoas mestiças foram consideradas brancas, apesar de terem declarado sua afrodescendência, é preciso voltar ao clássico “Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais”, de Oracy Nogueira (São Paulo: T.A. Queiroz, 1985). Se o geógrafo Demétrio tivesse lido esse livro, acredito que teria entendido porque as pessoas brancas que possuem algumas gotas de sangue africano são consideradas pura e simplesmente negras nos Estados Unidos – apesar de exibirem uma fenotipia branca – e brancas no Brasil. Ensina Nogueira que a classificação racial brasileira é de marca ou de aparência, contrariamente à classificação anglo-saxônica que é de origem e se baseia na “pureza” do sangue. Do ponto de vista norteamericano, todos os brasileiros seriam, de acordo com as pesquisas do geneticista Sergio Danilo Pena, considerados negros ou ameríndios, pois todos possuem, em porcentagens variadas, marcadores genéticos africanos e ameríndios, além de europeus, sem dúvida. Quando essas pessoas fenotipicamente brancas e geneticamente mestiças se consideram ou são consideradas brancas no decorrer de suas vidas e assumem, repentinamente, a identidade afrodescendente para se beneficiar da política das cotas raciais, as suspeitas de fraude podem surgir. Creio que foi o que aconteceu com os alunos cujas matrículas foram canceladas na UFSM e na UFSCAR. Se não houver essa vigilância mínima, seria melhor não implementar a política de cotas raciais, porque qualquer brasileiro pode se declarar afrodescendente, partindo do pressuposto de que a África é o berço da humanidade.. Lembremo-nos de que no início dos debates sobre as cotas colocava-se a dificuldade de definir quem é negro no Brasil por causa da mestiçagem. Falsa dificuldade, porque a própria existência da discriminação racial antinegro é prova de que não é impossível identificá-lo. Senão, o policial de Guarulhos não teria assassinado o jovem dentista identificado como negro pelo cidadão branco assaltado, e os zeladores de todos os prédios do Brasil não teriam facilidade para orientar os visitantes negros a usar os elevadores de serviço. Por sua vez, as raras mulheres negras moradoras dos bairros de classe média não seriam constantemente convidadas pelas mulheres brancas, quando se encontram nos elevadores, para trabalhar como domésticas em suas casas. Existem casos duvidosos, como o dos alunos em questão, que mereceriam uma atenção desdobrada para não se cometer erros humanos, mas não houve dúvidas sobre a identidade da maioria dos estudantes negros e mestiços que ingressaram na universidade através das cotas. Bem, o geógrafo Demétrio Magnoli leva ao extremo a acusação a mim dirigida quando me considera um dos “*ícones do projeto da racialização oficial do Brasil”. *Grave acusação! Infelizmente, ele não deu nomes a outros ícones. Nomeou apenas um deles, cuja obra não leu, ou melhor, demonstra não ter lido. Mas por que só o meu nome mencionado? Porque sou o mais fraco, pelo fato de ser brasileiro naturalizado, ou o mais importante, por ter chegado ao ponto mais alto da carreira acadêmica? Isso parece incomodá-lo bastante! Um negro que chegou lá, ao topo da carreira acadêmica, numa das melhores universidades do país, mas nem por isso esse negro deixou de ser solidário, pois milita intelectualmente para que outros negros, índios e brancos pobres tenham as mesmas oportunidades. De acordo com as conclusões assinaladas no livro de Eneida de Almeida dos Reis, muitos mestiços têm dificuldades para construir sua identidade por causa da ambivalência (Mulato: negro-não-negro e/ou branco-não-branco) , dificuldades que eles teriam superado se tivessem política e ideologicamente assumido uma de suas heranças, ou seja, a sua negritude, que é o ponto nevrálgico de seu sofrimento psicológico. Se o sociólogo acusador tivesse lido este livro e refletido serenamente sobre suas conclusões, ele teria percebido que não alimento nenhum projeto ou plano de ação para suprimir a mestiçagem no Brasil. Isto só pode ser chamado de masturbação ideológica, e não de análise sociológica, nem geográfica! Como seria possível suprimir a mestiçagem, que é um fato fundamental da história da humanidade, desafiando as leis da genética e a vontade dos homens e das mulheres que sempre terão intercursos interraciais? Nem o autor do ensaio sobre as desigualdades das raças humanas, Arthur de Gobineau, chegou a acreditar nessa possibilidade. Se as leis segregacionistas do Sistema Jim Crow no Sul dos Estados Unidos e do Apartheid na África do Sul não conseguiram fazê-lo, os ícones da racialização oficial do Brasil, entre os quais nosso colega me situa, terão esse poder mágico e milagroso que ele lhes atribui? Entrando na vida privada, gostaria que o sociólogo soubesse que tenho um filho e uma neta mestiços que não são monstros tristonhos como ele pensa, pois são educados para assumir sua negritude e evitar assim os graves problemas psicológicos apontados na obra de Eneida de Almeida Dos Reis, através da indefinida personagem Maria, (ver p.39-100). Como se pode dizer que os mestiços são geneticamente ambivalentes e que política e ideologicamente não podem permanecer nessa ambivalência e ser por isso taxado de charlatão acadêmico? Creio que se trata apenas de uma reflexão que decorre das conclusões do próprio livro e que de /per si/ não constituiria nenhum charlatanismo. Não seria um contra-senso e um grave insulto à USP que esse “charlatão acadêmico” tenha chegado ao topo da carreira acadêmica? E que tenha orientado dezenas de doutores hoje professores nas grandes universidades brasileiras, como a USP, UNICAMP, UNESP, UFMG, UFF, UFRJ, Universidade Federal de Goiás, Universidade Federal de São Luiz do Maranhão, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Candido Mendes, PUC de Campinas, etc. Creio que, salvo o geógrafo Demétrio, os que me conhecem através de textos que escrevi, de minhas aulas e de minhas participações nos debates sociais e intelectuais no país e no exterior, não me atribuiriam esse triste retrato. Disse ainda o geógrafo Demétrio que */“do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do racismo científico, velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética”./ *Sinceramente, não entendo como Demétrio conseguiu tirar tanta água das pedras. Das 20 linhas extraídas, de maneira deturpada, de um texto de três páginas de introdução, ele conseguiu dizer coisas horríveis, como se tivesse lido tudo que escrevi durante minha trajetória intelectual sobre o racismo antinegro. A colonização da África, contrariamente às demais colonizações conhecidas na história da humanidade, foi justificada e legitimada por um /corpus/ teórico-cientí fico baseado nas idéias evolucionistas e racialistas produzidas na modernidade ocidental. Teria algum sentido para mim, que milito contra o racismo, professar o racismo científico para lutar contra o racismo à brasileira? Acho que nosso geógrafo quer me transformar num demente que não sou. As pessoas que leram seu texto no jornal O Estado de S. Paulo podem pensar que eu sou esse negro ex-colonizado que professa as mesmas idéias do racismo científico que postulou a inferioridade e a desumanidade dos africanos, incluída a dele mesmo. Como entender que meus alunos de Pós-graduação, a quem ensino há vinte anos “As teorias sobre o racismo e discursos antirracistas”, uma disciplina freqüentada por alunos da USP, de outras universidades e outros estados, têm a coragem de ocupar um semestre inteiro para escutar profissões de fé em favor do racismo científico? Se o geógrafo Demétrio quer saber mais sobre mim, ingressei na Faculdade em 1964, aos vinte e dois anos de idade. Tive aulas de Antropologia Física com um dos melhores biólogos e geneticistas franceses, Jean Hiernaux. Uma das primeiras coisas que ele me ensinou era que a raça não existe biologicamente. Através de suas aulas, li François Jacob, Nobel de Fisiologia (1965) e um dos primeiros franceses a decretar que a raça pura não existe biologicamente; e J.Ruffie, Albert Jacquard e tantos outros geneticistas antirracistas dessa época. Portanto, sei muito bem, e bem antes de Demétrio que o racismo não pode ter mais sustentação científica com base na noção das raças superiores e inferiores, que não existem biologicamente. Sei muito bem que o conteúdo da raça enquanto construção é social e político. Ou seja, a realidade da raça é social e política porque tivemos na história da humanidade povos e milhões de seres humanos que foram mortos e dominados com justificativa nas pretensas diferenças biológicas. Temos em nosso cotidiano, pessoas discriminadas em diversos setores da vida nacional porque apresentam cor da pele diferente. Nosso sistema educativo é eurocêntrico e nossos livros didáticos são repletos de preconceitos por causa das diferenças. Não sou um novato que ingressou ontem na universidade brasileira. No Brasil, fui introduzido ao pensamento racial nacional por grandes mestres, como João Baptista Borges Pereira, que foi meu orientador no doutoramento, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Oracy Nogueira, entre outros. Não sei onde estava Demétrio nessa época e em que ano ele descobriu que a raça não existe. Acho um exagero querer me dar lição de moral sobre coisas que eu conheço muito antes dele. Isto não quer dizer que ele não possa me ensinar temas pertinentes à geografia, como por exemplo, o que se pode ler em seu livro sobre a África do Sul – “Capitalismo e Apartheid”, publicado pela Editora Contexto, São Paulo, 1998, que oferece algumas informações interessantes sobre a história do sistema do apartheid. Esse livro faz parte da bibliografia recomendada na disciplina ministrada na Graduação, não obstante algumas incorreções históricas nele contidas. Um dos maiores problemas da nossa sociedade é o racismo, que, desde o fim do século passado, é construído com base em essencializações sócio-culturais e históricas, e não mais necessariamente com base na variante biológica ou na raça. Não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo. É neste sentido que faço parte do bloco dos intelectuais brancos e negros que defendem as políticas de ação afirmativa e de cotas para o acesso ao ensino superior e universitário. Na cabeça e no pensamento de Demétrio Magnoli, todos os que fazem parte desse bloco querem racializar o Brasil, e isso faz parte de um projeto e de um plano de ação. Que loucura! Defendemos as cotas em busca da igualdade entre todos os brasileiros, brancos, índios e negros, como medidas corretivas às perdas acumuladas durante gerações e como políticas de inclusão numa sociedade onde as práticas racistas cotidianas presentes no sistema educativo e nas instituições aprofundam cada vez mais a fratura social. Cerca de 70 universidades públicas estaduais e federais que aderiram à política de cotas sem esperar a Lei ainda em tramitação no Senado entenderam a importância e a urgência dessa política. Acontece que essas universidades não são dirigidas por negros, mas por compatriotas brancos que entendem que não se trata do problema do negro, mas sim do problema da sociedade, do seu problema como cidadão brasileiro. Podemos dizer que todos esses brancos no comando das universidades querem também racializar o Brasil, suprimir os mestiços e incentivar os conflitos raciais? Afinal, podemos localizar os linchamentos e massacres raciais nos Estados onde se encontram as sedes das universidades que aderiram às cotas? Tudo não passa de fabulações dos que gostariam de manter o /status quo/ e que inventam argumentos que horrorizam a sociedade. Quem está ganhando com as cotas? Apenas os alunos negros ou a sociedade como um todo? Quem ingressou através das cotas? Apenas os alunos negros e indígenas ou entraram também estudantes brancos da escola pública? Concluindo, penso que existe um debate na sociedade que envolve pensamentos, filosofias e representações do mundo, ideologias e formações diferentes. Esse pluralismo é socialmente saudável, na medida em que pode contribuir para a conscientização de seus membros sobre seus problemas e auxiliar a quem de direito, o legislador e o executivo, na tomada de decisões esclarecidas. Este debate se resume a duas abordagens dualistas. A primeira compreende todos aqueles que se inscrevem na ótica essencialista, segundo a qual a humanidade é uma natureza ou uma essência e como tal possui uma identidade genérica que faz de todo ser humano um animal racional diferente dos demais animais. Eles afirmam que existe uma natureza comum a todos os seres humanos em virtude da qual todos têm os mesmos direitos, independentemente de suas diferenças de idade, sexo, raça, etnias, cultura, religião, etc. Trata-se de uma defesa clara do universalismo ou do humanismo abstrato, concebido como democrático. Considerando a categoria raça como uma ficção, eles advogam o abandono deste conceito e sua substituição pelos conceitos mais cômodos, como o de etnia. De fato, eles se opõem ao reconhecimento público das diferenças entre brancos e não brancos. Aqui temos um antirracismo de igualdade que defende os argumentos opostos ao antirracismo de diferença. As melhores políticas públicas, capazes de resolver as mazelas e as desigualdades da sociedade, deveriam ser somente macro-sociais ou universalistas. Qualquer proposta de ação afirmativa vinda do Estado que introduza as diferenças para lutar contra as desigualdades, é considerada, nessa abordagem, como um reconhecimento oficial das raças e, conseqüentemente, como uma racialização do Brasil, cuja característica dominante é a mestiçagem. Ou, em outras palavras, as políticas de reconhecimento das diferenças poderão incentivar os conflitos raciais que, segundo dizem, nunca existiram. Assim sendo, a política de cotas é uma ameaça à mistura racial, ao ideal da paz consolidada pelo mito de democracia racial, etc. Eu pergunto se alguém pode se tornar racista pelo simples fato de assumir sua branquitude, amarelitude ou negritude? Como se identifica então o geógrafo Demétrio: branco, negro, mestiço ou Demétrio indefinido? Pelo que me consta, ele se identifica como branco, mas não aceita que os negros e seus descendentes mestiços se identifiquem como tais e lutem por seus direitos num país onde são as grandes vítimas do racismo. A menos que ele negue a existência das práticas racistas no cotidiano brasileiro, e as diferenças de cor, sexo, classe e religiões que exigiriam políticas diferenciadas. A segunda abordagem reúne todos aqueles que se inscrevem na postura nominalista ou construcionista, ou seja, os que se contrapõem ao humanismo abstrato e ao universalismo, rejeitando uma única visão do mundo em que não se integram as diferenças. Eles entendem o racismo como produção do imaginário destinado a funcionar como uma realidade a partir de uma dupla visão do outro diferente, isto é, do seu corpo mistificado e de sua cultura também mistificada. O outro existe primeiramente por seu corpo antes de se tornar uma realidade social. Neste sentido, se a raça não existe biologicamente, histórica e socialmente ela é dada, pois no passado e no presente ela produz e produziu vítimas. Apesar do racismo não ter mais fundamento científico, tal como no século XIX, e não se amparar hoje em nenhuma legitimidade racional, essa realidade social da raça que continua a passar pelos corpos das pessoas não pode ser ignorada. /Grosso modo, /eis as duas abordagens essenciais que dividem intelectuais, estudiosos, midiáticos, ativistas e políticos, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Ambas produzem lógicas e argumentos inteligíveis e coerentes, numa visão que eu considero maniqueísta. Poderão as duas abordagens se cruzar em algum ponto em vez de se manter indefinidamente paralelas? Essa posição maniqueísta reflete a própria estrutura opressora do racismo, na medida em que os cidadãos se sentem forçados a escolher a todo momento entre a negação e a afirmação da diferença. A melhor abordagem seria aquela que combina a aceitação da identidade humana genérica com a aceitação da identidade da diferença. Para ser um cidadão do mundo, é preciso ser, antes de mais nada, um cidadão de algum lugar, observou Milton Santos num de seus textos. A cegueira para com a cor é uma estratégia falha para se lidar com a luta antirracista, pois não permite a autodefinição dos oprimidos e institui os valores do grupo dominante e, conseqüentemente, ignora a realidade da discriminação cotidiana. A estratégia que obriga a tornar as diferenças salientes em todas as circunstâncias obriga a negar as semelhanças e impõe expectativas restringentes. Se a questão fundamental é como combinar a semelhança com a diferença para podermos viver harmoniosamente, sendo iguais e diferentes, por que não podemos também combinar as políticas universalistas com as políticas diferencialistas? Diante do abismo em matéria de educação superior, entre brancos e negros, brancos e índios, e levando-se em conta outros indicadores socioeconômicos provenientes dos estudos estatísticos do IBGE e do IPEA, os demais índices do Desenvolvimento Humano provenientes dos estudos do PNUD, as políticas de ação afirmativa se impõem com urgência, sem que se abra mão das políticas macrossociais. Não conheço nenhum defensor das cotas que se oponha à melhoria do ensino público. Pelo contrário, os que criticam as cotas e as políticas diferencialistas se opõem categoricamente a qualquer política de diferença por considerá-las a favor da racialização do Brasil. As leis para a regularização dos territórios e das terras das comunidades quilombolas, de acordo com o artigo 68 da Constituição, as leis 10639/03 e 11645/08 que tornam obrigatório o ensino da história da África, do negro no Brasil e dos povos indígenas; as políticas de saúde para doenças específicas da população negra como a anemia falciforme, etc., tudo isso é considerado como racialização do Brasil, e virou motivo de piada. Convido o geógrafo Demétrio Magnoli a ler o que escrevi sobre o negro no Brasil antes de se lançar desesperadamente em críticas insensatas e graves acusações. Se porventura ele identificar algum traço de defesa do racismo científico em meus textos, se encontrar algum projeto ou plano de ação para suprimir os mestiços e racializar o Brasil, já que ele me acusa de ícone desse projeto, ele poderia me processar na justiça brasileira, em vez de inventar fábulas que não condizem com minha tradicionalmente pública e costumeira postura."

domingo, 5 de julho de 2009

Nós conheciamos ele.

Fui dar uma volta de bicicleta no centro como em qualquer outro dia. Passei pela Av. Ipiranga diante do cine Marabá e lembrei que ele foi reformado e só por curiosidade fui ver a programação. Entre os hollywood da vida estava lá o filme Jean Charles, de Henrique Goldman. Faltavam 10 minutos para começar e resolvi entrar.

Conheço a história dele. Muita gente conhece e lembra bem do drama que foi esse assassinato. E prefiro contar de algumas lembranças do que simplesmente falar do filme. O filme na verdade nem me pareceu tão bom assim, mas por conta da história ele fica muito sensível e logo no início parei de avaliar sua qualidade e fiquei tomado pelo drama do Jean. Mesmo sabendo o final do filme é uma história legitima, muito honesta e bastante real. Claro que o filme não diz ao pé da letra como ele vivia, mas a vida que Jean levava, ainda é a vida de milhares de brasileiros anônimos em muitos países distantes. Isso faz com que seja u filme importante. As argumentações que são levantadas alí merecem atenção, precisam ser ouvidas, tem que se fazer conhecer.

Estive em Londres entre setembro e dezembro de 2007. Tudo se resumiria numa palavra: foda. Não porque Londres é incrível e fantástica, ela pode ser, claro que pode, mas para muita gente ela é apenas foda, que te fode, que te consome, te detona, te usa, despreza. O modo como as autoridades britânicas lidaram com a morte de Jean comprova isso. Não sou eu ficando puto dizendo isso, mas apenas os fatos revelando o que eles são capazes de fazer. Acho que não preciso me dar ao trabalho de dizer que em todo lugar existem muitas pessoas legais, mas vamos apenas fazer um recorte desses fatos, sem entrar nos detalhes todos que a questão merece. Além do que fazer mea culpa por causa da Inglaterra seria uma piada de muito mal gosto.

A história do Jean, em parte, não é única. Ele como muitas outras pessoas gostaria de mudar, de melhorar e transformar sua vida. Ninguém migra porque acha legal ir comer o pão que o diabo amassou lá no fim do mundo. Ser imigrante normalmente é triste, duro, precisa deixar muita coisa longe e sem nenhuma garantia de que vai funcionar. Mas a história de Jean é também singular porque faz todo mundo sentir que aquilo poderia ter acontecido com qualquer um; e essa sensação é muito angustiante.

Eu já havia experimentado essa sensação. Lembro de Max e Dário nos piquetes em Buenos Aires e quando foram assassinados pela polícia argentina e lembro logo em seguida quando Carlo Giuliani foi assassinado pela policia italiana nas manifestações de Genova em 2001. Lembro de Brad Will quando os paramilitares mexicanos o mataram em Oaxaca em 2006. Todos eram ativistas lutando por aquilo que lhes pertencia. Sempre pensei nesses casos e ficava com a sensação que poderia ter sido eu. A única coisa que nos distinguia era a hora. Eu não estava naquele exato momento em que os mataram, mas poderia estar. Estava algumas horas ou minutos daquele lugar, alguns metros ou alguns kilometros deles, mas que diferença isso faz quando um tiro é disparado contra um amigo, um companheiro de luta?

O trem onde assassinaram Jean precisei pegar várias vezes. As casas ondem moram tantas pessoas eu ajudei a construir e reformar e lá estava um eletricista como ele. A merda daquela placa eu também segurei! Foda, Londres é foda! Talvez não seja tanto, mas pra mim foi. Para o Jean foi. E olha que no filme ele se revela bem animado de viver por lá, mas ainda assim... Eu gostaria que esse filme fosse apenas uma ficção, uma história triste que aconteceu longe, somente na cabeça de alguém, mas não é. Eu conheci esse cara. Não que tenhamos nos tornado grandes amigos, mas conheci todo mundo que estava naquela casa e naquela construção. Trabalhamos juntos. E também com todo mundo que chorava bem baixinho pra ninguém ouvir. Conheci aquele povo que ia pra aula de inglês gratuita no meio do dia nas escolas perto de Oxford St. porque ninguém tinha dinheiro para pagar ou porque precisava economizar. Quantas vezes fomos comer no indiano ou no chinês porque era a comida mais barata? Não que fosse ruim, mas a grana era sempre uma questão, sempre. Eu lembro de algumas coisas que faziamos para tentar melhorar o rendimento e lembro das mancadas que via uns fazerem com os outros achando que ninguém iria saber. Lembro de alguns que achavam incrível ser garçon, lavador de prato, entregador de pizza por lá, mas que não faria isso nem a pau aqui. Lembro de gente falando que o samba era o máximo, mas no Brasil não pararia numa roda de samba no boteco pé sujo de modo algum. Lembro bem daquele inglês escroto que não se dispunha nem a responder quando lhe perguntavam a hora. Lembro perfeitamente daquela cretina no bar olhando a gente como se fossemos menos que nada. Como poderia esquecer aquele outro dia em que o desgraçado do taxista quase atropelou a gente e ainda gritou tentando nos ofender dizendo “seus imigrantes de merda”? Melhor nem começar a falar dos trampos que não pagam nem o mínimo! 3 pounds a hora, dá pra acreditar?! Fazer o que? Ou era isso ou ia pra fila do sopão distribuido em alguns pontos pra galera que vivia nas ruas. Só para vocês saberem, o mínimo quando estavamos lá era de 5,50 pounds a hora. E aquela porra de tempo de outono e inverno? Caralho! Sempre com os pés molhados e a garoa fria na cara, ficando sem luz, sem sol as 3 horas da tarde. Agora eu entendo o humor inglês!

Bom, é por isso que eu quis chorar no filme quando matam o Jean. Aquela arma poderia ter sido disparada contra minha cabeça. Os disparos foram feitos contra alguém que eu conhecia. Sete tiros na cabeça. Mataram alguém que você conhecia! Porra! Merda do caralho! Mataram alguém que estava do meu lado no trem! E os desgraçados foram lá na casa dos pais dele oferecer um cheque para ajudar com as despesas. Forma bizarra de tentar calar a boca de alguém. Foda... Fiquei pensando como meus pais receberiam a notícia se me matassem assim também. Então se você quiser chorar antes, durante ou depois do filme, faça! Mataram alguém que você conhecia. Sua prima também presenciou tudo aquilo.

E essa história não acabou. Tem um monte de gente que conhecemos levando porrada agora mesmo em algum centro de detenção de imigrantes. Hoje mesmo mataram mais alguém porque parecia um terrorista. Fazem poucas horas que os oficiais de imigração separaram mais uma família. Foi hoje mesmo que o racismo e a xenofobia foram praticados sem ninguém ser responsabilizado por isso. Agora, agora mesmo tem alguém sendo humilhado por estar longe de sua casa. Olha bem porque no próximo minuto mais injustiça estará sendo feita. Escute bem os soluços de alguém pedindo pelo amor de Deus para pararem... Esta sentindo o cheiro? É melhor ignorar.

Caso você precise atravessar alguma fronteira escute isso que tenho para lhe dizer: olhe bem nos olhos de quem quer que esteja ali. É seu direito ir para onde vai! É seu direito caminhar por qualquer lugar desse planeta! Não sinta medo, ou não lhe dê muita atenção, porque são como cães treinados para farejar isso e te acusar. Não importa se você é inocente, isso é um mero detalhe para eles. Então tenha isso claro na sua cabeça: é seu direito andar por qualquer lugar e do modo que lhe parecer melhor!

Sabe, pensando melhor, o filme é bom sim. Poderia ser mais duro na minha opinião, mas o Jean não precisa disso. Como disse, gostaria que fosse diferente, mas não é. Entretanto isso não quer dizer que um dia não possa ser. Talvez a indignação seja menor um dia, mas até lá, como diz uma canção de Violeta Parra, só peço a Deus que não me deixe ser indiferente.Que um dia poderemos ser como o Pequeno Príncipe explorando mundos distantes e indo buscar o que nosso coração desejar.

A utopia que se faz nos tantos passos dados até agora. Que todas as história são dignas de serem contadas. Que o mundo que muitos pensam ter sido sempre assim, na verdade nem sempre foi, que mentiram pra gente! Que a história não acabou e como dizem os Zapatistas, a luta é como um círculo, que pode começar em qualquer ponto, mas nunca termina. Que se olharmos de perto, todos querem apenas um pouco de amor, para compartilhar, para ser útil e sonhar. Que o ódio pode ter nos feito começar, mas será o amor que nos fará parar.

Quando sai do cinema fiquei pensando em muitas coisas, com o peito apertado e refletindo também o que 10 minutos podem fazer com a gente. Eu nunca entro depois que a sessão começa. Ainda bem que entrei e me dei conta de certo modo que o ressentimento vai ser superado por nós e aqueles que fizeram tanto mal, como nos ensina a ética ubuntu, se darão conta que fazem esse mal primeiramente a si mesmos. A sabedoria mesmo sendo apenas um ideal, e no caso da história do Jean, com dor e tragédia, não será esquecida por que pode nos dizer coisas importantes de alguém que conhecemos.




sexta-feira, 3 de julho de 2009

Boas coisas dessa vida

Como é dever de todo ser humano, vamos compartilhar as coisas boas desse mundo. Rolou ontem e amanhã tem mais. O músico Jake Shimabukuro é uma havaiano que toca um instrumento de corda chamado Ukulele. Assista o vídeo e confira a habilidade do rapaz! Pois então, está aqui no Brasil participando do Festival Alma Surf, que acontece no prédio da Bienal, no Ibirapuera até dia 04/07.

Quase

Às vezes eu me sinto
como um papel molhado
que cai num vão

como bunda de mulher
que todo mundo
passa a mão

Às vezes eu me sinto
como um vidro
que jogaram pedra
... e se quebra

mas que fica ali
e não cai no chão
deixando uma terrível sensação

Às vezes eu me sinto como uma rosa
que enfrenta uma forte ventania
e fica se defendendo
de uma total agonia

Às vezes eu me sinto
como se estivesse presa
por um fio
como um navio
que não partiu

Ficou...

quinta-feira, 2 de julho de 2009


O Velho E A Flor
Vinicius de Moraes

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor