sábado, 3 de maio de 2008

Uma chance para o perdão

[...] É importante compreender que qualquer coisa que pode ser perdida nunca foi realmente nossa; qualquer coisa a que nos apegamos profundamente apenas nos aprisiona.

Christina Feldman, em "Stories of the Spirit, Stories of the Heart"


encontrado em Samsara

sexta-feira, 2 de maio de 2008

64º Fórum do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz

A ÁFRICA E SUAS RECIPROCIDADES NA CONSTRUÇÃO DA PAZ MUNDIAL
a cargo do Prof. Dr.Acácio Sidinei Almeida Santos

Vinte anos depois da euforia do bem sucedido single "We are the world" em "benefício" das vítimas da fome na África, o mundo volta-se novamente para o continente africano. Crescem os programas de ajuda humanitária e a esperança de ver resolvida, pelo menos em parte, as dores humanas. Crescem também os esforços para que o mundo daqueles que querem ajudar conheça o mundo daqueles que serão "ajudados" e o convite para que atravessem as fronteiras e vejam a África não-oficial, a África das economias vernaculares, das solidariedades e das reciprocidades, elementos primordiais para a construção da paz duradoura.
Crescem os esforços para que os mundos (africano e não-africano), em um só mundo, vejam nas reciprocidades uma esperança para que as ajudas não representem apenas uma vontade de dominação e arrogância, mas sim o mais profundo reconhecimento de que o remédio do homem é o homem.
A África é uma das últimas escolas para todos nós que acreditamos que um outro mundo é possível. O alerta que ecoa alto daquele continente nos adverte para que saibamos que aquilo que acontecer às sociedades africanas, acontecerá irremediavelmente a todos nós.
Por isso, ao tratarmos das reciprocidades africanas na construção da paz mundial, estaremos tratando também de descobrir possibilidades comunitárias para uma sociedade mais ampla e potencialmente mais aberta para a vida.

NA OCASIÃO HAVERÁ UMA EXPOSIÇÃO DE TECIDOS AFRICANOS DE DIVERSAS PARTES DO CONTINENTE.
A maneira de vestir o corpo revela, em todas as sociedades e culturas, modos de estar no mundo. Assim, em muitas partes da África os tecidos, com suas variadas tramas, cores e texturas indicam papéis sociais, estampam mensagens, contam histórias, transmitem idéias, valores e propõem soluções. Enquanto a padronização da vestimenta impera em muitas partes do globo, as cidades e aldeias africanas pulsam o ritmo da criatividade vibrante das roupas e de seus habitantes.

ACÁCIO SIDINEI ALMEIDA DOS SANTOS possui graduação e mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC/SP). Doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP/SP) e Pós-doutorado pela Faculdade de Saúde Pública / USP. Atualmente é professor do Departamento de Antropologia da PUC/SP, consultor da Faculdade de Medicina da PUC/SP, pesquisador e vice-coordenador da Casa das Áfricas (www.casadasafricas.org.br). Tem experiência nas áreas de Antropologia e Sociologia, atuando principalmente nos seguintes temas: África, migração, ritos funerários, morte, afro-brasileiro, religiosidade afro-brasileira, ancestralidade, saúde e HIV/AIDS. Desde 1999 desenvolve trabalho de campo na Costa do Marfim, África do Oeste.

ENTRADA FRANCA
6 de maio de 2008 • terça-feira • 19 horas Auditório do MASP • Museu de Arte de São Paulo Av. Paulista, 1578 - São Paulo - SP (Estação Trianon-Masp do Metrô)

Informações: Palas Athena (11) 3266-6188
Realização: Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz

Um novo prazer

Na noite passada inventei um novo prazer e, quando ia experimentá-lo pela primeira vez, um anjo e um demônio apareceram subitamente. Encontraram-se diante de minha porta e começaram a discutir sobre meu prazer recém-criado. Um deles gritava:
- É pecado!
E o outro:
- É virtude!
Khalil Gibran

terça-feira, 29 de abril de 2008

Lindo mesmo!

Depois de ler isso eu só posso querer voltar pra casa...
Do nosso jeitinho

É sabido – e tenho tantas vezes insistido aqui – que a meia-dúzia que sempre se arvorou em dona do Brasil nunca suportou o povo brasileiro. Não gostam da comida que gostamos, desprezam nosso modo de viver, nossa música, nossa sabedoria, menoscabam nosso jeito de rezar e curar os males do corpo e da alma. É claro que as coisas do povo que nunca toleraram vez por outra entram na moda por um motivo qualquer e aí é um tal de dar-se um jeito de tudo ficar mais “higiênico”, mais branco, menos mestiço – foi assim com o carnaval, a religião, está sendo com o futebol, os butiquins etc. - , mas isso é assunto pra outras conversas. Depreciam de tal modo as culturas nossas tributárias, que mesmo entre os negros que desprezam, julgam os nossos os piores, “bantos primitivos”; nossos índios estão no paleolítico enquanto os d’alhures construíram admiráveis civilizações; os portugueses são a nação mais atrasada da Europa, periferia do sistema, patrimonialistas medievais etc. Usam para nos medir uma medida extrínseca que nada tem a ver conosco e segundo a qual sempre seremos uma versão imperfeita do seu “ideal” importado: nossa democracia é atrasada, falta capitalismo, erudição, instituições deficientes...
Um dos traços mais singulares do povo brasileiro passou, por escamoteamentos ideológicos repisados até a exaustão, de exemplo da nossa brejeirice pacífica e algo gaiata, resistente e original, a uma espécie de pústula moral a ser banida dos projetos civilizatórios da modernidade (branca e capitalista, lógico): o famoso “jeitinho” brasileiro. Porque este sempre foi para nós uma capacidade de, apesar das adversidades, malgrado as impossibilidades decretadas pela conjuntura opressiva, contruir o entendimento, superar o aparentemente insuperável. Na base do “conversando é que a gente se entende”, nos orgulhávamos de uma habilidade de improviso lastreada no pouco apreço às soluções formais pre-determinadas, acreditando que a razoabilidade se constrói numa interação mediada pela atitude de entender e se fazer entendido. Mas os nossos senhores, que naturalmente usam e cuidam de sua condição, não conseguem conviver com essa fluidez embebida de encontro e possibilidade; aferrados às suas certezas, encastelados em sua condição de ditadores das regras auto-perpetuadoras, empedernidos pela lógica da eficiência a serviço da acumulação, trataram de fazer do “jeitinho” um traço de decrepitude de caráter típico dos povos atrasados, que dessa forma jamais poderiam aspirar ao mundo maravilhoso da modernidade e suas benesses.
Escrevia dias atrás sobre a falência da comunicação pela palavra falada. Num mundo que tem horror ao diálogo interpessoal – assim sempre me soou o modo europeu de vida, basta ver dois desconhecidos brasileiros se encontrando em outro país (normalmente se abraçam e comemoram o encontro, como se velhos amigos fossem) e o mesmo se dando com dois alemães... – é necessário ter regras precisas e claras para normatizar todas as situações, de modo que o mínimo espaço haja para a possibilidade de discussão. E mesmo essa, deve-se dar pelas vias institucionais, dentro dos limites formais previstos. Se um vizinho dinamarquês avançar seu muro meio metro sobre o terreno ao lado, ele responderá por isso nas barras dos tribunais, nos estritos termos da legislação. No Brasil, sempre houve a possibilidade, a menos a princípio, de se discutir a solução tomando um café no butiquim da esquina, com boa possibilidade de se deixar pra lá, contanto que o outro possa ficar com as mangas que pendem daquela frondosa mangueira sobre o seu quintal alheio... Ao menos enquanto viveu a palavra.
É por isso, meus caros, que nos desesperam as atendentes de telemárquetim que sempre responderão com seus 15 modelos de frases prêt a porter não importa se Rui Barbosa ou Leonel Brizola estejam a argumentar do outro lado da linha. É por isso que temos tanta dificuldade de aceitar os campeonatos por pontos corridos, onde o melhor vai sagrar-se campeão em 99% dos casos. O gosto pelo improviso, pelo imponderável mora em nosso espírito, faz parte da nossa natureza. A busca pelo desenvolvimento econômico e humano, por uma sociedade mais igualitária com acesso indistinto às utilidades que a modernidade logrou poduzir não pode tomar como padrão único um mundo pré-fabricado, engessado, previsível, sem espaço para a originalidade, para a criação e o improviso, fundamentos da singularidade individual e cultural. Singularidade é “jeito”, habilidade é “jeito”, solução é “jeito”. Quero meu jeitinho de volta!
E é por isso, contrariamente, que no butiquim se desconta cheque, se compra fiado (mesmo e sobretudo com a presença da plaquinha indefectível: “fiado só amanhã”), se deixa recado, se pede o prato assim ou assado, ao gosto do freguês , se decide sobre os destinos da humanidade... Tudo pode, desde que se converse! É por isso que no butiquim todos são irmãos de pratos e copos, mesmo que NUNCA se tenham visto antes. É por isso que no butiquim – e só no butiquim – ainda há jeito. Isto é, nos de verdade, os que ainda sobraram, “redutos últimos da palavra”, como quis o Poeta.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Aquele que...

Por um lado (apesar da dor) é bom que as coisas fiquem insuportáveis. Assim vamos ver claramente quem está do lado de quem, quem compactua com o quê. Talvez faça sentido que a ordem venha do caos, e de algum modo sejamos obrigados a pensar e reconhecer a urgência de algo mais organizado. Não pense que as coisas estão duras apenas na sua cidade, no seu país. O mundo está em chamas e só não vê quem não quer. Temos mais um ano de eleições e uma avalanche de promessas. O que fazer? Particularmente nunca escondi que política partidária não me parece uma solução, é apenas um paleativo com uma oportunidade para se pensar no menos pior. Digo no modo de agir, na maneira de operar, porque não sou da opinião que todo político num partido é corrupto e vendido (apesar que tendo a desconfiar de lugares como o psdb, pfl, etc). Trabalho e acredito nas relações do dia a dia, na ação direta, nos movimentos sociais, na autonomia, na política além do voto. Estou convencido desse caminho, desse modo de fazer as coisas, mas nunca deixei de respeitar e considerar os amigos e os muitos lutadores que pensam diferente e que escolhem uma prática tradicional (reformista?), talvez menos revolucionária, ou como queira chamar. Diante do inimigo comum, tudo isso é válido e como disse no início, vamos ver quem esta do lado de quem. O que me aborrece é o oportunismo. Ser sectário me parece algo contra o pensamento e a conduta libertária para uma vida mais sincera e livre. Esse é o desafio: parafraseando os zapatistas, um mundo com muitos outros mundos. O que não posso aceitar é que queiram me governar. O que não posso aceitar é que me digam o que fazer. Acredito na autoridade que venha da verdade, não o contrário. O que não irei aceitar mesmo é o privilégio e a exploração. Como disse Pierre-Joseph Proudhon: "Aquele que tenta pôr as mãos em mim é um usurpador e um tirano. Eu o declaro meu inimigo".

Sempre é bom lembrar!


quinta-feira, 24 de abril de 2008

A sutileza do título

Existem momentos que depois de alguém falar com tanta precisão sobre um determinado assunto, nem vale mais continuar a debater e só nos resta concordar. Veja essa tal Virada Cultural e como apenas posso corroborar com o Bruno Ribeiro. Já começa pela sutileza do título. O texto faz referência a Virada Cultural de um ano atrás, mas continua bem pertinente. Leiam até o fim que vale cada linha.

Virada cultural é o caralho!
por Bruno Ribeiro
"Durante toda a semana passada só se falou na Virada Cultural Paulista, que pela primeira vez teve uma edição campineira. De sábado para domingo foram 24 horas ininterruptas de música, teatro, cinema e exposições. Trabalhei na cobertura do show do grupo Sistema Negro, no Jardim Ieda. A expectativa (não a minha, evidente) era de que o show de rap, que ocorreu diante do sexto distrito policial de Campinas, acabasse em confusão - à exemplo do show dos Racionais, em São Paulo. Típica associação preconceituosa que a classe média faz do rap com a violência - reforçada depois que a Rede Globo culpou o público pelo confronto com a polícia militar. Não cabe agora discutir de quem foi a culpa pela pancadaria, mas é sempre bom lembrar que o problema é o homem e não o lugar de onde ele vem. Só discorda quem não conhece a periferia de perto.
Eu já sabia que seria um show tranqüilo. Depois fui para a redação escrever a matéria, mas não quis participar da Virada Cultural. Comprei um vinho na volta e fiz uma sopa na santa paz do lar, ouvindo a música que gosto, na altura que gosto, na companhia de quem gosto. E isso me basta. Não participei em nenhum momento do oba-oba geral. Primeiro porque, danem-se os politicamente corretos, esse papo de virada é coisa de viado. E segundo que não tenho mais paciência para shows. Não agüento mais encontrar a mesma "turminha da balada" ou, como gosto de chamar, a "turminha do u-hu". Ela está no "samba-rock pra quem começou a gostar de preto há pouco tempo"; ela está no "rock psicodélico com influências de folclore pernambucano e literatura de cordel"; está no "forró sem cabeça-chata para meninas que dançam ciranda" e agora também na "gafieira que acha que é gafieira só porque tem sax e trombone na formação, mas que não canta samba sincopado e nem samba de breque". Estou cantando a bola em primeira mão: atentem para o surgimento da mais nova moda universitária: a gafieira. E eu, como estou cada vez mais decidido a firmar um pacto com a vida, pacto de só viver o que for verdadeiro, me recuso a estar nesses lugares onde todo mundo se acha o i do mississipi.
A Virada Cultural é feita para essa classe média que, além de não ser produtora de cultura, não entende picas do assunto (embora se ache a grande mantenedora das vanguardas artísticas) e se limita apenas a consumir shows sem qualquer critério. Aliás, o critério que ela conhece é sempre o da quantidade e nunca o da qualidade: se o show está lotado, então é bom. E mesmo assim não pode estar lotado de pobre: tem que ter muita "gente bonita". Cultura no cu dos outros é refresco. Essa é a mentalidade da classe média e é por isso que me recuso terminantemente a compartilhar de seus mesmos gostos e interesses. Venho da classe média também, mas nunca aderi ao seu modo de vida. Estou seguro de não estar falando nenhum absurdo.Vou explicar melhor a minha bronca. Antes, porém, peço licença ao Eduardo Goldenberg para roubar descaradamente uma citação do Ariano Suassuna publicado primeiro no seu Buteco do Edu:
O Ariano disse tudo: se for preciso assumo essa briga sozinho, como já tenho feito nos últimos dez anos. O país ainda não está pronto para ser nação e é por isso que alguém tem de meter o dedo no nariz da classe média e dizer para ela: "Você está errada". Também estou certo de não cometer nenhuma injustiça. Injustiça, por exemplo, é o que fizeram com o samba e o choro na programação da Virada. À eles foram dedicados os piores horários e locais: ao grupo Choro Bandido, que está lançando seu segundo CD e tem entre seus integrantes craques como Chiquinho do Pandeiro e Daniel Romanetto, foi reservada uma apresentação às 8h de domingo, no Bosque dos Jequitibás. A mentalidade é: "chorinho é coisa de velho; velho acorda cedo; chorinho é bucólico; manda o chorinho para o bosque". O samba também foi tratado como moeda de troca: apenas Ilcéi Miriam e o grupo do Cupinzeiro foram convidados, entre tantos grupos bons que poderiam ter ocupado outros horários do programa. Sem falar que samba é sempre na praça e nunca no teatro ou nas grandes salas de espetáculo. E também ao samba deram um horário ingrato, quando as pessoas estavam saindo do trabalho. Muita gente saiu da periferia para ver o samba e não conseguiu chegar a tempo, porque dependia de ônibus e às seis da tarde não há ônibus para quem mora do outro lado da ponte. Engraçado como as duas maiores expressões da música popular brasileira são sempre tratadas com desdém pelo poder público e pela classe média - a mesma que gosta de "valorizar" o samba e "resgatá-lo" de algum lugar que ninguém sabe qual seja.
As noites são reservadas sempre aos ritmos estrangeiros (rock, blues, jazz) ou à música com discurso pop de bandas como Cordel do Fogo Encantado. O argumento - posso até ouvir vozes aí do outro lado da tela - é de que o samba não é capaz de lotar o espaço público. Não fossem a hipocrisia e o eufemismo, diriam abertamente: "O samba não é capaz de lotar o espaço público de gente bonita, de gente da nossa laia". Mas então é a hora de nos perguntarmos por que e para quem é feita a Virada Cultural. Para que tipo de público os governos municipais movem seus esforços e investem o dinheiro de nossos impostos? E, Deus meu, de onde tiraram a idéia de que em Campinas não há cultura acontecendo o ano todo?
Domingo, enquanto muita gente ia para a Estação Cultura gritar u-hu, eu fui para a periferia, onde me criei com muito orgulho. E só me arrependo de não ter uma máquina fotográfica para mostrar aqui no blog, batendo o pau na mesa, que o samba não precisa de cartaz e nem do aval da classe média para acontecer e reunir muita gente. A roda, aliás, não é show, é cultura no sentido profundo do termo. Está acontecendo porque tem de acontecer, porque é passada de pai para filho, porque é uma necessidade e toda a comunidade está ao seu redor, confraternizando, dividindo a garrafa de cerveja, o churrasquinho feito na hora, a alegria e a tristeza da vida real. A vida de verdade, sem que ninguém precise fazer tipo para se sentir inserido ou representado. As relações não passam pela questão da roupa, do padrão de beleza, do julgamento moral. Todo mundo é truta, todo mundo é irmão, a partir do momento em que o samba pega e você o respeita. Estou falando do Pagode da Vó Tiana, terreiro localizado na Vila Teixeira, comandado pelo parceiro Juninho Fortaleza (com quem emplaquei Salve a Defumação, um sambão de macumba que já anda nas bocas da negrada da Vila)."Pessoal, andaram dizendo que a roda de hoje ia ficar vazia por causa da Virada Cultural. Falaram que tava todo mundo indo ver o jazz e ver o rock. E a Vila Teixeira disse não. Todos aqui disseram não à esse papo furado de que a cultura estaria lá, do outro lado da ponte, e que a gente só teria uma opção: atravessar a cidade para poder se divertir um pouco. E nós dissemos não. Dissemos que não é verdade. Porque nós somos a cultura de Campinas. Ela está aqui, na periferia. E não precisa ser convidada para subir no palco. A casa cheia de amigos em dia de samba é a prova de que a nossa cultura é viva e é forte" - disse o pandeirista Cilão, na abertura dos trabalhos, sendo aplaudido de pé por cerca de 300 pessoas.
Lá encontrei Amaury "Velha Arte" e Nelsinho Fidélis - este o maior cantor de samba do Estado de São Paulo. E banco a afirmação se alguém duvidar. Terminada a roda - que contou com a presença de Sombrinha, parceiro de Arlindo Cruz - fomos de táxi para a Vila União, no maravilhoso Bar do Neto. Detalhe: fomos tão longe que o taxímetro marcou R$ 80 ao final da corrida. Adivinha se pagamos? É claro que não! Na quebrada é todo mundo camarada e uma mão lava a outra. E o Amaury tinha crédito na praça. De modo que o taxista também entrou para beber com a gente. E o samba comendo solto na mesa do butiquim. Candeia, Aniceto, Xangô. Vou repetir: Candeia, Aniceto, Xangô. Só sabe a dimensão disso quem é do riscado. E ouvir o primeiro verso é sacar que a cidade não conhece a cidade. E ainda tem muito o que aprender se quiser falar em cultura.
Pergunta se eu paguei a conta? Claro que não de novo! Aliás, acho que ninguém nunca paga a conta. Porque sempre tem alguém que se oferece para pagar a sua, da mesma maneira que alguém pagou a dele e assim por diante. No fim, vai ver, o sujeito pendura e acerta no fim do mês. Eu volto lá em outra oportunidade, deixo uma meia dúzia de Brahmas pagas na conta do cidadão, sem esperar nada em troca. E essas pequenas gentilezas vão gerando mais gentilezas, de modo que cria-se uma espécie de segunda família (para muitos, a primeira) e a roda de samba é onde estas relações se exacerbam, como que num transe. A roda de samba propicia um momento mágico em que você se sente realmente parte de um grupo e sua pessoa passa a ter alguma importância. O sujeito deixa de ser um consumidor passivo para ser agente histórico do que está acontecendo naquela hora. E a alma do bairro, da cidade, da pátria, da humanidade, percorre cada músculo e cada nervo de seu corpo. Sem luxo, sem frescura, sem glamour. Na vivência da única democracia que conheço, que é a roda de samba feita na mesa do buteco. Ali, onde a vida acontece e as pessoas são naturalmente felizes (sem esconder suas dores), a cultura é parte integrante do cotidiano. Não precisa que lhe dediquem um final de semana, nem que a classe média reconheça sua existência e seu valor. O povo lhe faz imortal, não é meu camarada?
PS: O endereço? Não dou nem sob tortura."